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Impressão de ano

por Regina da Cruz, em 31.12.13

Olharei para 2013 por cima do ombro - "Que queres de mim? Conheço-te?"

 

Não sei o que dizer deste ano, é uma grande mancha, uma nódoa de fronteira irregular.
Os picos de felicidade que vivi facilmente se dissolvem quando integrados no contexto geral. E foi, no geral, um ano terrível.
É impossível saborear uma vitória pessoal, o sucesso, quando à volta reina a confusão, a pobreza, a revolta silenciada, o desespero resignado, a ignorância, o embrutecimento. Quando ligamos a TV chovem disparates. Quando abrimos o jornal salta à vista propaganda e mentiras. Desinformação e superficialidade, um chorrilho de meias-verdades e clichés. Que nojo!

Olhamos para o mundo e há países a saírem-se tão bem e outros, tão mal. Por ignorância, por pura ignorância bruta.

Todos os dias que passaram vi ser-me roubada uma parte do meu salário, uma parte da minha liberdade, uma parte da minha energia, uma parte da minha ambição, uma parte dos meus sonhos. Que futuro? Que futuro, quando todos partem?! Para quem ando eu, afinal, a trabalhar? Dizem-me que o que me retiram da boca é para o estado social… Pergunto: que "social"? Que social?! Não há social nenhum aqui, há emigração em massa, há desagregação, há separação, há destruição. E velhice, muita. Fiquei também por eles, pelos velhos - que será deles se todos, os novos, partirmos? Portugal, esse lar à beira-mar plantado. É bem sabido que este país não é para novos, nem para ninguém que tenha sangue vivo na guelra! Mas também é verdade que é hostil para os velhos, pelo menos, para alguns velhos, os reformados, principalmente aqueles reformados de uma vida de trabalho "privado". Ficou claro ao longo deste ano que há velhos de primeira e velhos de quinta. Os de quinta, quem se importa com eles?

"Concentra-te no presente pois é tudo o que há." Repeti vezes sem conta o mantra sábio, em surdina, como auto-lavagem cerebral. Meditei. Não chegou. Caminhei. Não chegou. Vagueei, deambulei, abandonei-me. Não chegou. Corri. Corri ainda mais. Corri tanto que fugi! Fugi muito este ano que passou, não fiz outra coisa que não fosse fugir, para a frente, sempre para a frente, um dia de cada vez, na impossibilidade de serem dois. Rápido!

Tive saúde, é verdade, e agradeço. Afinal, aquela coisa de que me ria "a saudinha, para si e para os seus!" é a melhor coisa que me podem desejar - faz sentido e dou por mim a desejar "saúde!" aos que amo: digo-o com autenticidade, com solenidade, olhos-nos-olhos.

2013… o ano da confusão, da dissolução. Pela primeira vez, que me lembre, não soube o que pensar, fiquei baralhada várias vezes, a clareza lendária do meu raciocínio deu o tilt em várias situações. Na impossibilidade de raciocinar, vociferei:

"Está tudo louco!"
"Perdeu-se a vergonha na cara!" - que provavelmente nunca se teve…
"Perdeu-se a razão!"
"Perdeu-se a noção do ridículo!"

"Eu desisto."


E fugi novamente, desliguei, não quis saber. Não adianta, para quê saber? Saber é sofrer.

Tenho consciência que estamos a viver um período de transição e por isso é normal estarmos enterrados até ao pescoço nesta lama. Esta lama é "normal".

O meu desejo para os próximos anos é que se saia desta lama e se pise terreno fértil. O meu receio é que o país saia da lama para pisar o deserto. E com a quantidade de gente destrutiva, ignorante e egoísta que este país tem em lugares de poder algo me diz que após a lama virá a areia. Será necessário uma grande mudança de mentalidade dos governantes e dos cidadãos para que ideias novas possam florescer neste terreno agora lamacento. Que sejam deitadas à terra as sementes da mudança e que se protejam os rebentos novos das pragas e parasitas, desses predadores que vivem da estagnação, da confusão e da destruição. Que se regenere esta terra para que um dia possamos reaver aqueles que agora partem rumo a países amigos de ideias boas, países que os abraçam e lhes enchem os corações de esperança e os olhos, de futuro. Um dia esse país será Portugal. Tem de ser!

Vai-te embora 2013 e leva contigo os que te tornaram tão desprezível.



publicado às 15:43

O abandono europeu dos EUA

por John Wolf, em 14.11.13

Ouvi falar há alguns dias sobre uma aliança dos países da periferia da Europa (que se encontram condicionados pela austeridade e pelo ditado da Troika), no sentido de fazerem frente ao norte europeu. Essa solução seria uma espécie de "brothers in arms" dos destinatários das decisões políticas tomadas em Bruxelas (União Europeia), Berlim (Alemanha) e Frankfurt (BCE). Este fenómeno de fractura ocorre no hinterland da União Europeia, no seio do projecto europeu - no espaço de fins civilizacionais comuns, segundo alguns.  Enquanto a situação europeia não se desencrava, o resto do mundo não está à espera. Alguns países do resto do mundo ocidental (ou não), procuram um modo de alavancar a sua vantagem competitiva e de um modo combinado. Um acordo comercial na zona do Pacífico está a ser finalizado e integra, velhos inimigos e novos parceiros. Esse bloco de entendimento comercial não tem a ambição de ser um plataforma de integração política - vale por si, vale pelas receitas resultantes de trocas comerciais. Há já algum tempo andava a pensar porque razão os EUA não têm estado presentes no processo europeu (como em tempos idos), e agora sei porque isso está acontecer. Os interesses estratégicos dos EUA passam por outras polaridades que não a Europa. Por seu turno, a União Europeia, por ser efectivamente uma manta de retalhos, com ambição a federação, mas sem avançar para uma verdadeira união política e fiscal, está a perder terreno na corrida aos mesmos recursos e mercados. Portugal, que é apenas um de muitos que partilham esta contradição existencial europeia, procura regressar aos mercados financeiros, mas está acorrentado por decisões excêntricas. Acresce a esta situação, a emergência de uma tendência proteccionista na Europa, para não a designar de nacionalista e xenófoba. O entendimento entre a extrema-direita de França e da Holanda não é um bom sinal. É um grave sintoma da patologia social que contagia a Europa, com maior ou menor intensidade conforme a cultura ideológica local. O eurocentrismo, mais do que uma convicção que nasce com os europeus, serve para, de um modo erróneo, interpretar o mundo como se este se reduzisse ao velho continente. Numa frase simples e porventura incompleta; a Europa está limitada pela sua visão endémica, pelo refúgio numa ideia de status quo, ou no limite, pela noção de reposição de um equilíbrio que não tornará a ser. 

publicado às 20:21






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