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Taxismo de sempre

por Nuno Castelo-Branco, em 10.10.16

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Como não utente do serviço de taxis, tinha decidido nem sequer comentar a controvérsia que opõe os taxistas aos seus colegas da "Iubâr" ou da "Québifai". Rarissimamente mando parar um taxi, logo este é um tema que não me interessa minimamente. Contudo, no telejornal da uma, assisti às expectáveis e há muito previstas cenas de violência que não se limitou à farta verbosidade que o luso-calão encerra num dos infindáveis tomos acumulados ao longo de quase um milénio de história pátria.

Recordo apenas o primeiro contacto que tive com tal sector e por mais miraculoso que a muitos possa parecer,  aqui deixo a data desse encontro imediato: a escura e bastante tépida noite de 7 de Setembro de 1974.

Chegados a Lisboa devido à bastante aturada decisão paterna de antecipadamente auto-limparmos familiar e etnicamente Lourenço Marques, fomos viver para a aproximadamente meia dúzia de metros quadrados propiciados pela roulotte do primo Joaquim Dantas. Em Monsanto estávamos relativamente seguros numa Lisboa em pueril polvorosa.

Nos primeiros dias aproveitámos para visitar a parte da cidade histórica, hoje muito mutilada devido à febre do obra a obra que há décadas tomou de assalto as mentes de sucessivas vereações camarárias. Após um dia sem grande historial a registar e como àquelas horas nocturnas o machimbombo 43 já não funcionava, o meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e pcht! Taxi! Taxi!

- É para o Parque de Campismo de Monsanto...

E lá fomos sentados no banco de trás, acompanhados pela nossa mãe. Íamos conversando e ainda nada habituados aos até então desconhecidos termos como foleiro ou reinar - "rénar", no dizer geral -, pontilhámos a conversa com os ya, maningues, nice, tombazanas e outras palavras que tínhamos aprendido nas ruas e casas da nossa volatilizada cidade natal. Provavelmente o chauffeur moita-carrasco bigodudo e de boné estranhava, mas nada dizia, até que o rádio iniciou o debitar das notícias que precisamente naquele 7 de Setembro traziam ao conhecimento da então Metrópole, acontecimentos num território bem conhecido e por nós já interiorizado como para sempre distante. 

...graves acontecimentos (...) colonos em fúria (...) fascistas (...) Rádio Clube de Moçambique (...) assalto (...) forças reaccionárias (...) colonialistas (...) conluio com os sul-africanos (...) Lourenço Marques (...) MFA...

O meu pai gentilmente pediu ao motorista: 

- Desculpe-me, importa-se de aumentar o som do rádio?

- Eh pá, ó camarada, afinal d'adonde bócêzes são, pá?  

- Somos de LM, chegámos há uma semana e vivemos provisoriamente em Monsanto. 

- F-se!, Car...! Pqp!, no meu taxi uma família de fachos dum car...?! Os pretos deviam ter-vos cortado às postas seus fdp dum car...! 

Parou o radiofonizado calhambeque Mercedes "marreco" num profundo e doloroso gemido de travões gastos.

- Rua já, seus cabr... antes que eu chame os meus camaradas e vos f... a todos aqui mesmo nesse mato, seus fdp! Vão prá vossa terra, vão para a c... da vossa mãe!

O meu pai mandou-nos sair e voltando-se para o revolucionário de carrascão e caracoletas, perguntou-lhe com um sorriso:

- E como tenciona chamar os tais camaradas? 

E lá partiu ele, decerto furibundo e bufando, deixando-nos às escuras em pleno monte de Monsanto por onde deambulámos durante uma boa hora aos círculos, procurando a entrada de um parque de campismo que o meu pai julgava próximo. Na verdade estava e felizmente encontrámo-lo sem grandes delongas. Este episódio serviu-nos de aviso para o que aí viria. 

Já distante mas jamais esquecida esta tempestade de outros tempos, foi mais ou menos este o discorrer do discurso escutado que tenho como nota de rodapé da estória da minha família. Decerto não fomos os únicos, pois apostaria que qualquer um dos leitores terá a sua. Será ela a propósito de pretos? De ciganos? Ou será de estrangeiros Made in U.E. que invadem e roubam tudo o que é nosso

publicado às 17:55

A morte da esperança

por João Almeida Amaral, em 04.12.15

 

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 foto Jornal Lamego

Não me recordo, eram talvez 20,30 quando a emissão da RTP foi interrompida. Julgo que anunciaram um acidente com uma pequena aeronave no aeroporto de Lisboa, na zona de Camarate. Pouco depois apareceu Freitas do Amaral. Em tom combalido,anunciou a morte de todos os que viajavam a bordo do Cessna. Terminou pedindo para todos os que assistiam rezassem  com ele um Pai Nosso. 

Francisco Sá Carneiro tinha 46 anos , era um jovem político, tinha fundado o PPD.

Eu tinha 18 anos estudava num ano novo a que chamaram propedêutico, tinha menos 28 anos que ele.

Hoje tenho mais 8 anos. 

Com ele morreu a esperança da minha geração. Independentemente de nunca ter militado no PPD ,Francisco Sá Carneiro era o homem em quem depositávamos a esperança de enterrar o PREC de uma vez por todas, (a ele devemos a extinção do Conselho da Revolução). 

Sei que  muita gente, por ter nascido depois, não sente com a mesma intensidade, o que ele representava para um jovem de 18 anos.

Ao longo da vida, vivi envergonhado com a postura de muita gente no PPD,PS e CDS  . Nenhuma comissão de inquérito provou o assassinato. 

Deixo algumas questões:

  • Foi o primeiro português (julgo que único) a fazer frente aos EUA em relação ao BA4 (base dos Açores)
  • Foi o primeiro , Primeiro Ministro de Portugal a ter uma relação cordial com um Presidente ,(Machel) de uma Ex-colónia (Moçambique)
  • Samora Machel morreu da mesma forma e pouco tempo depois (apenas o piloto sobreviveu o que também é estranho)
  • A AD foi por si desenhada 
  • Alguns dos seus mais próximos são hoje independentes de esquerda , sendo raro, democratas cristãos tornarem-se adeptos de partidos e ou alianças com comunistas e trotskistas

Cada um o recordará com entender. 

Para mim a sua morte foi o fim da esperança na recuperação do meus país. 

  

publicado às 18:39

Groundhog Day

por Fernando Melro dos Santos, em 04.06.14

Foi depois de ouvir os fora da TSF e Antena 1, hoje, que tive esta epifania de ir buscar, por misericórdia, um calendário que mostrasse aos empedernidos da Revolucinha em que circunstâncias vivemos, por seu mérito inalienável.

 

Calendário actualizado para quem parou de contar os dias em 26 de Abril de 1974.

publicado às 14:51

O caviar intragável

por João Pinto Bastos, em 29.01.14

Pois é, parece que à esquerda não há, efectivamente, nada de novo debaixo do sol.O Bloco, fazendo jus à sua tradição de parlapatice enfatuada, vai-se esfumando progressivamente, levando, nessa espiral destrutiva, os pouquíssimos rostos mediaticamente apelativos que ainda restavam nas caves bolorentas da Almirante Reis. A coisa tem uma história e genealogia próprias, que, para abreviar o possível cansaço dos leitores com as tranquibérnias do esquerdismo caviar, se resume no facto de a tradição política da extrema-esquerda ter no seu âmago constitutivo o dissídio e o confronto intestinos. Nada que, em boa verdade, surpreenda os espectadores mais cautos das guerras civis da esquerda portuguesa. Aliás, se há ilação que se pode retirar da imensa confusão em que caiu o Bloco de Esquerda é que o aggiornamento das esquerdas portuguesas, sob este regime, e com estes protagonistas políticos, é, ao cabo, uma autêntica miragem. Passada uma década e meia, o Bloco implode sem que, ao menos, tenha logrado europeizar, política e intelectualmente, um sistema político configurado às arrecuas. Mas, no fundo, o que tem de ser tem sempre muita força, e, neste caso, a força reside inapelavelmente do lado dos que desejam, sem desprimor para Schumpeter, a destruição pouco criativa da civilidade inerente ao bom trato da coisa pública. O problema é que, com esta implosão, a governabilidade futura do país ficará, em grande medida, superiormente limitada. Mais: pensar numa esquerda que governe unida, carregando solidariamente as dores da governação, é, para todos os efeitos, uma ilusão que doravante, atenta a crise presente, importa não alimentar. Tudo leva a crer, portanto, que serão os portugueses a pagar, mais uma vez, a factura desta romaria festiva, pela singela razão de que não será de todo possível regenerar a República sem uma extrema-esquerda que entre no arco da governabilidade, desobstruindo, com essa abertura, o imobilismo político crismado pelo PREC. Foi isto que, com muita bufonaria política à mistura, o séquito de Louçã diligentemente legou aos seus compatriotas.

publicado às 01:03

Um LIVRE potencialmente libertador

por João Pinto Bastos, em 18.11.13

O novo partido criado pelo ambíguo Rui Tavares presta-se a variegadas interpretações, todas elas passíveis de alguma barafunda. No fundo, a hermenêutica deste "fenómeno" depende, como quase todas as coisas, da perspectiva em que cada um se coloque. A minha, no caso em apreço, prima por alguma credulidade, pela simples razão de que, não obstante a pungente história desta III República, ainda creio na possibilidade, duvidosa, é certo, das nossas esquerdas se "europeizarem". Nessa medida, não vejo com maus olhos este acometimento político espoletado por Rui Tavares. Quem conhece a história nacional dos últimos 39 anos sabe que o regime se consolidou no rescaldo do dissídio verificado entre as esquerdas emergentes no pós-25 de Abril de 1974. Esse dissídio teve como consequência necessária a imposição do Partido Socialista como o árbitro do sistema político conformado pela Constituição de 76. O Partido Comunista liderado, então, pelo, hoje, incensadíssimo Álvaro Cunhal acabaria por aceitar o equilíbrio político gizado pelos socialistas, aceitando em troca a participação no jogo parlamentar. Esta troca, vista à distância, teve, como não podia deixar de ser, múltiplas implicações, que, nos dias que correm, ajudam, sobremaneira, a explicar o imobilismo político que, mormente, abalroa as governações socialistas. Na prática, o PS tornou-se, com os anos, numa espécie de PRI à portuguesa, sendo, em função disso, o centro político da democracia nacional. Como é bom de ver, a extrema-esquerda acusou o toque, recusando, desse modo, o aggiornamento ideológico imprescindível a uma política pactista. O Bloco de Esquerda surgiu, em grande medida, como a resposta ao bloqueio político originado no PREC, visando renovar, com uma plataforma política repleta de pós-modernices fracturantes, a esquerda portuguesa, no entanto, os resultados da fantasia bloquista comprovam, uma década e meia depois, que não basta meia dúzia de pechisbeques caviarianos para alterar uma lógica incrustadíssima no âmago político do regime. É neste contexto que surge o partido de Rui Tavares, um contexto marcado, fundamentalmente, pela impossibilidade de haver entendimentos largos entre as diversas forças políticas das esquerdas portuguesas. Como referi no início desta posta, ainda creio, talvez ingenuamente, num entendimento governativo ao nível das esquerdas, porque, sem ele, o regime, tal qual o conhecemos, tenderá, necessariamente, a erodir-se. Alguns leitores perguntar-se-ão, certamente, o porquê de alguém, como eu, pertencente ao campo da direita conservadora ansiar por um compromisso à esquerda. A resposta é muito singela: o regime só se normalizará (entenda-se por normalização o enfraquecimento das reminiscências ideologizantes do regime) com a "europeização" das esquerdas, isto é, se a esquerda socialista souber pactuar com a extrema-esquerda, o sistema político, polarizado em torno do Partido Socialista, adquirirá, necessariamente, uma feição nova, na qual a direita terá, finalmente, uma oportunidade de ouro para afirmar um projecto político alternativo, que aparte, definitivamente, a práxis das inenarráveis cedências políticas às cantilenas socializantes. Do ponto de vista de quem se reclama da área política da direita, um entendimento à esquerda seria, em boa verdade, um excelente tónico para a renovação programática que continua, infelizmente, a ser adiada para as calendas gregas. Não sei se Rui Tavares será capaz de levar avante uma proposta política que se arrogue uma concertação à esquerda. Para dizer a verdade, olhando para o histórico deste regime democrático, tenho as mais sinceras dúvidas que um novo partido, ainda para mais alicerçado nos descontentes do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda, obtenha o menor êxito. Ademais, não é líquido que Rui Tavares disponha do talante político indispensável à tarefa referida. O próprio eurodeputado, fazendo uso da sua natural ambiguidade, como é, aliás, seu timbre, não tem dado razões suficientes para acreditar que o partido em causa não seja uma plataforma fulanizada. Mas a política ensina-nos que não há impossíveis, porque, vistas bem as coisas, o homem é, como dizia Ortega, o homem e as suas circunstâncias. Resta saber se as circunstâncias de Rui Tavares se coadunam com um projecto político desta envergadura. O futuro será o juiz desta empresa.

publicado às 23:03

"Súcialismo"

por Nuno Castelo-Branco, em 23.05.13

 

Às segundas, quartas e sextas, era a greve na distribuição de água. Às terças, quintas e sábados, cabia a vez da electricidade e por vezes, em simultâneo com a do gás. Tornaram-se rotineiros os duches de água fria pelo lombo abaixo. Em pouco mais de seis meses, Portugal conseguiu copiar os bons exemplos que vinham de leste, ou melhor ainda, filhou aquela dengoza incompetência a cheirar a cascas de bananas podres vindas da terra dos Castro. A propósito deste post do John Wolf, convém recordar alguns episódios de um passado que alguns teimam em querer fazer regressar.

 

Uma família onde existissem três filhos, era coisa própria de sortudos. Se os pais conseguissem uns trocos, um dos miúdos ia para a bicha do pão, o outro para a do leite e o terceiro para o "supermercado" Val do Rio, à espera de conseguir um quilo de batatas cobertas de terra, ou meia dúzia de ovos ainda com claros indícios de terem saído do orifício do galináceo.

 

Mesmo ao lado do prédio onde a família foi viver, existia uma pequena padaria. Os fins de semana eram dias de aprovisionamento com o que fosse mais acessível. O sábado tornava-se num dia santo para a compra de carcaças capazes de encher as barrigas desses três garotos que de qualquer forma, tinham de ser alimentados. Para um indescritível número de felizardos, o Quitute da Revolução foi o pão com pão, em momentos imprevistos barrado com margarina Planta. Invariavelmente era necessário esperar uma meia hora para conseguirmos chegar ao balcão, onde uma vendedora já histérica pela gritaria dentro e fora de portas, era de chofre confrontada com um pedido hoje simples, mas naquela época perigosamente escandaloso:

 

- Quero trinta carcaças!

 

- Trinta carcaças?!  Fo...-se!, além de virem para cá estes fascistas cheios de doenças roubar-nos as nossas casas e empregos, agora são açambarcadores!


Era infalível escutarmos latidos destes, aos quais respondíamos com um sorriso por vezes sobranceiro. Vindos dos impacientes que aguardavam a sua vez na rua, logo se ouviam alguns rosnares que jamais passaram disso. Se por milagre ainda existisse a almejada quantidade daquele ainda hoje detestável pãozinho borrachoso e cheio de vento, éramos mesmo servidos e da "pádeiria" saíamos, tendo ainda a oportunidade de deixarmos no ar um provocador dito espirituoso e claramente político. O efeito era imediato e momentos após, mais acima na segurança do quarto andar, o berreiro era audível, mutuamente se enviando para os respectivos aparelhos reprodutores maternais, os furibundos "progressistas" e  "reaccionários" de então.

 

Debruçados no parapeito da varanda e mortos de riso sob o abrasador sol do verão de 1975, era um deleite gozarmos o panorama. 

publicado às 12:00

Enfim...

por Nuno Castelo-Branco, em 22.02.13

Oportuna lembrança do Corta-Fitas. Curiosa é a parte "técnica" da informação germânica: diz-se logo no início que a Torre Bela "pertencia ao Duque de Bragança" e depois sai-nos um Lafões na entrevista, aliás bastante má. O francês é rézonáblemã comprãsible ê tré ao estilo soarista, mas com alguma atenção vamos entendendo qualquer coisa. Encerrando a boa reportagem, a "confirmação da devolução" da Torre Bela a "D. Diogo", "Duque de Bragança". Quem seria o D. Diogo?

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publicado às 20:10

Estórias da história (1): Raquel Varela

por Nuno Castelo-Branco, em 18.02.13

 

A agora mediaticamente colunável Sra. Dª Raquel Varela, decidiu-se por sherlockolmizar as suas actividades, dedicando-se ao reccauchutar de uma bem conhecida praxis muito própria dos seguidores dos diversos totalitarismos que pontilharam o século passado. Recriar o passado à medida das conveniências de grupo, poderá parecer um singelo exercício de história paralela, mas neste caso, quando tal azáfama pretende transmutar a realidade, apenas consegue publicar estória.

 

O Clube de Jornalistas publicou um interessante alerta na sua página, sucintamente descrevendo os principais pontos da argumentação da investigadora Raquel Varela. Trata-se de um outro PREC para a imensa maioria e totalmente estranho às realidades então vividas e que são plenamente comprovadas por um espantoso manancial de informação, seja aquela proveniente dos meios de comunicação social do Portugal de 1974-76, ou, para supino incómodo dos branqueadores de incómodas nódoas, do filão propiciado pelo próprio PC e organizações subalternas. Durante mais de dois anos, o PC exaustivamente fez publicar as suas intenções, cristalizou programas, definiu rumos sem retornos possíveis ou imaginários. Mais ainda, conseguiu indicar as etapas, embora consentisse no princípio leninista dos vários estádios para a ditadura do proletariado, termo aliás arredado do léxico por óbvios transtornos junto de um eleitorado esmagadoramente hostil a esse tipo de bem-aventuranças.

 

Não lemos a tese da investigadora e sublinhamos tratar-se este post de um mero comentário àquilo que o Clube de Jornalistas publicou.

 

Uma das mais extraordinárias afirmações varelistas, consiste no estranho afiançar de que Álvaro Cunhal “nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal”.


Como poderão hoje chegar ao ponto de negarem aquilo que para todos era então evidente? O que poderá então a autora dizer dos discursos entorpecedoramente orados pela cúpula do PC e adjacentes durante dois anos, as páginas e páginas publicadas e que de revolução socialista falavam sem qualquer tipo de peias? A "apropriação colectiva", as nacionalizações extensivas, a hegemonia que claramente pretendeu exercer sobre as Forças Armadas - chegando ao ponto de adulterar os normais rituais de iniciação castrense - , o violento ataque à propriedade privada - com a respectiva coacção moral e física de pequenos, médios e grandes empresários -, os saneamentos, a mordaça à imprensa que não lhe era afecta - o caso República e os saneamentos às ordens do então praticamente desconhecido Saramago são notas dignas de registo - , os constantes apelos ao estabelecimento do "poder popular", as ocupações de casas, empresas e terras e a hegemonia da então todo-poderosa Intersindical nas decisões do mundo laboral - greves claramente políticas, então denominadas de selvagens -, não foram nada mais, senão os passos iniciais para tentar a total conquista  do poder. Tudo isto está em clara contradição com o alegações de Raquel Varela, ao garantir que "o projecto do PCP incluía um capitalismo regulado, a manutenção de Portugal na NATO e da propriedade privada."


Pelo que se lê, o PC já ensaia a experiência chinesa pós-Mao.


Prosseguindo na mesma linha, a informação divulgada pelo Clube de Jornalistas menciona os contactos de Soares com os diplomatas ocidentais - ainda estão bem presentes algumas grandiloquentes bravatas, como aquela em que o então secretário-geral do PS garantia não querer ser o Kerensky português -, tentando muito justamente convencê-los acerca da necessidade de incluir o PC no governo provisório. É totalmente acertada a suposição dessa necessidade, pois a presença de Cunhal era essencial para o objectivo central da acção soviética no nosso país, ainda hoje não se sabendo se Soares seriamente considerou essa realidade. Como poderia evoluir a situação no Ultramar num sentido agradável a Moscovo, se ausente do executivo - e logo das cúpulas dirigentes das F.A. -, o PC não pudesse influir poderosamente nas decisões tomadas? Como foi então possível a tão rápida adulteração do programa do MFA e dos seus angélicos propósitos a respeito do pluri-continentalismo português, o fulminante liquidar de Palma Carlos e a escalada que permitiu o 28 de Setembro e a imposição da estranha personagem Vasco Gonçalves? Este consiste no aspecto essencial do papel reservado ao Partido Comunista e uma cuidadosa e necessária consulta aos arquivos soviéticos, talvez num futuro ainda distante poderá fazer alguma luz sobre todos os episódios então ocorridos. A pressão nas ruas para a rápida desmobilização e abandono do cenário africano, fez titubear Mário Soares que num daqueles normais acessos próprios dos acossados, transformou-se em campeão da "descolonização", facto que o próprio Cunhal abertamente lhe atiraria à face num debate na RTP. Freire Antunes poderia agora explicar a R.V. as movimentações americanas em Portugal e quais as verdadeiras razões para a política então prosseguida pelo PS e pelo seu mais notório dirigente. 

 

Em abono do Partido Socialista, há que considerar a atempada procura do auxílio nos seus parceiros da IS e sobretudo junto dos norte-americanos, quiçá os únicos capazes de reagir assertivamente àquilo que então Soares abertamente chamava de tentativa de reedição do "golpe de Praga". Era verdade, o caos reinava no governo, no Ultramar, nas ruas, na economia, nas forças armadas e providencialmente o PC fazia crer ser a única força política perfeitamente organizada para o país conseguir alguma ordem. Além do sempre patusco anti-emigrantes Georges Marchais, em Portugal desembarcava um J.P. Sartre que se fez fotografar empunhando uma G-3 - ele, o mais apático e incógnito francês dos tempos da ocupação alemã! - aconselhando os seus novíssimos admiradores a seguirem o natural curso dos acontecimentos. Alguns outros, talvez menos conhecidos mas nem menos fervorosos pela descoberta de um novo campo de acção, garantiam já um efeito dominó sobre o conjunto europeu ocidental. Como bem conhecido compagnon de route, Sartre ia dizendo logo após conhecer os "decepcionantes" resultados das eleições para a Constituinte, que ..."o que é essencial é o poder popular que está a formar-se. Esta assembleia não me inspira confiança: os partidos não colam a um movimento popular que pediria qualquer coisa. Os partidos em Portugal representam uma espécie de ligação estranha que não corresponde a nada. As fábricas em autogestão, por exemplo, são uma manifestação de massas muito mais entendida pelas Forças Armadas do que pelos partidos que se opuseram a elas." (in Libération 26-IV-1975). No essencial, parecem afirmações exactamente decalcadas de uma desbragada entrevista - de tal forma emotiva que logo tentaram negar a sua autenticidade - que Álvaro Cunhal concedeu a Oriana Fallaci, durante a qual o severo líder do PC  orgulhosamente afirmava: “nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (...) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria. Estou a dizer que as eleições não têm nada, ou muito pouco, a ver com a dinâmica revolucionária (...) Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento (...). A solução dos problemas depende da dinâmica revolucionária; ao contrário, o processo democrático burguês quer confinar a revolução aos velhos conceitos do eleitoralismo (...) Democracia para mim significa liquidar o capitalismo, os monopólios. E acrescento: não existe hoje em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental (...). É um facto indiscutível que Portugal actualmente se dirige para o comunismo. A única coisa que não posso dizer é que forma assumirá esse socialismo. Talvez devesse poder dizê--lo, dado que sou o responsável por um partido que que não foi derrotado, muito pelo contrário. Nós, os comunistas, querê-lo-íamos integralmente mas devemos ter em conta uma realidade muito complicada e muito contraditória. O nosso programa de um Portugal comunista está certamente sujeito a rectificações (...). Nunca vi uma revolução que se desenvolva sem o apoio dos militares ou de uma força militar. Veja Cuba. Como Castro não dispunha de um exército teve que fazê-lo. E nós, que dispomos de um exército já estruturado, devemos ignorá-lo? Acredite-me, sem armas não se consegue nada (...) O MFA não é comunista nem socialista. Trata-se de revolucionários diferentes dos tradicionais. Na realidade, ideologicamente, têm correntes distintas. Mas, é inevitável que nós os comunistas estejamos de acordo com eles, porque os seus objectivos são os nossos. E um desses objectivos é o poder político constituído por um elemento popular e por um elemento militar. Quem, senão os operários comunistas, as massas comunistas, esteve ao lado dos militares desde o 25 de Abril? As forças democráticas, os socialistas, juntaram-se a eles no último momento. Apenas desfraldaram as suas bandeiras depois da vitória deles". Tudo isto foi copiosamente corroborado na imprensa afecta, adoptando-se outros recursos como a constituição de grupúsculos de pressão - alguém ainda se lembra, entre muitos outros, dos SUV? - ou a sobrevalorização do papel institucional e dirigente do MFA, em claro detrimento e subalternização dos partidos políticos maioritários.

 

Mito será alguém sequer imaginar uma remota hipótese de algum dia o PC não ter pretendido o exercício do poder em Portugal. Teve-o, tomando conta de organismos estatais, fossem eles gabinetes nos ministérios, instituições culturais, uma boa parte da opinião publicada, poder local, etc. Tudo o que se passou durante um ano e meio de conturbados conflitos, ameaças e coacção sobre o todo nacional, indicam precisamente o oposto daquilo que o processo de branqueamento pretende fazer crer.

Há ainda que atender ao dogmatismo sovietista, bastante avesso a ímpetos daqueles a quem desdenhosamente chamava de "esquerdistas" e que em certo momento pareceram dominar as ruas pelo ruído e inconsequente radicalismo que chegou ao ponto de contaminar umas forças armadas, na sua maioria doutrinariamente nada dotadas para a oposição de qualquer resistência séria. O PC não podia admitir ver arrebatar a "liderança da revolução" por grupos considerados marginais. O PC tinha o primeiro-ministro Gonçalves, contava com um medroso presidente Costa Gomes - após o PREC e a sua saída de Belém, transformar-se-ia num típico funcionário de uma conhecida correia de transmissão soviética, o CP para a Paz e Cooperação -, contava com coniventes no Conselho da Revolução e sobretudo, tinha o país controlado pela bem real ameaça física que as suas "vanguardas" significavam. 

 

Raquel Varela poderá um dia involuntariamente acabar por reconhecer que a impossibilidade do "fazer a revolução socialista" não terá partido de Cunhal, mas sim do forçoso reconhecimento das realidades impostas pela geopolítica do momento e sobretudo, pela decisiva tutela que Moscovo exercia sobre o PC. A URSS sabia até onde podia pressionar  e já tinha, graças à acção do PC no governo e na tropa, obtido a totalidade do até então importante Ultramar português. A delimitação das esferas de influência - a Conferência de Helsínquia coincidiu com o PREC - mantinha na Europa o tácito status quo estabelecido com a potência americana. Num jogo infinitamente mais complexo, o PC pouco ou nada significava, para mais sabendo-se do escasso apoio popular com que podia contar. Se numa primeira fase da "revolução" foram visíveis os ataques ao direito de reunião da gente do PS, PPD, CDS e outros - chegando-se ao ponto de serem extintos por decreto alguns partidos políticos, proibindo-se outros de concorrerem às Constituintes -, o verão de 1975 mostraria quão frágeis eram as certezas de controlo do PC sobre uma população já então pouco atemorizada e que lhe deu generosa réplica. Decididamente, os portugueses lobrigaram nas urnas eleitorais, a lápide com a qual rapidamente puseram um ponto final à efémera, arrivista e irrepetível aventura.

 

Num derradeiro espasmo de sonhadas heroicidades de antanho, Varela sugere ter sido Cunhal o agente benfazejo que impediu a guerra civil. Se alguma vez entre camaradas cogitou essa bastante improvável hipótese, Cunhal terá então salvo in extremis o seu grupo, pois o desastroso resultado do conflito estaria de antemão garantido. Apenas quem não viveu no Portugal de 1975 poderá hoje minimizar a efervescência dos estados de espírito em todo o país e a repulsa que os não-comunistas  - mais de 85% do eleitorado - votavam ao partido soviético. A narradora contabiliza espingardas, amalgama "fuzileiros e operários" da Intersindical - sempre a vertigem pelo fiel cumprimento da cartilha de todos os mitos -, afirma "superioridades" militarmente bastante contestáveis e desanimadamente termina com a voluntária não-resistência do PC. Não houve resistência, mas tão só uma desistência e o salvar das aparências, aliás garantidas por Melo Antunes.

 

A Raquel Varela apenas faltou focar o factor chave e inoportuno: a esmagadoramente contrária vontade popular.  

 


publicado às 01:02

Como muito bem diz o meu irmão Miguel, ainda circula pelas ruas um conhecido artefacto que fez furor nos tempos da pretensa revolução. Pelos militantes mais "basistas", era conhecido por Mariconera, ou para os mais embrenhados nas tontices parisienses, pela Mariquette. Serviam o mesmo fim, mas marcavam uma fronteira inter-classista. Consistia e consiste numa maleta onde se guardam os preciosos pertences do dia a dia. Havia-as quadradas, as preferidas pela gente que sabia ler e se dava a ares, os trabalhadores intelectuais do MUTI. Geralmente em tons escuros - castanho ou negro -, ostentavam um desvio pequeno burguês no fivelame e fechaduras a dourado, reluzente latão que correspondia à esquerda, aos fiozinhos de prata com crucifixos, usados pelas meninas da Alternativa 76 do prof. Freitas do Amaral. Estas Mariquettes eram caras, feitas em bom cabedal e encontravam-se nas lojas da moda. Claro está, nem todos a elas podiam recorrer e os seus usuários pertenciam à vanguarda dirigente do povo, passeando-as pelos cafés da Baixa à hora de ponta. A tiracolo, atestavam o progressismo do dono. Alguns dos mais conhecidos clientes da moda foram entre muitos outros, os Srs. Augusto Zequinha Abelaira, Zequinha Saramago, Zequinha Afonso, Zequinha Mário Branco, Zequinha Manel Tengarrinha, o Manecas das Intentas (o grande líder da FSP, rival de Mário Soares), os talentosos maestro Lopes Graça e fadista Carlos do Carmo, além dos burgueses meninos de ouro do MES. Não nos podemos esquecer daqueles que se especializaram em cantigas autobiográficas. Ainda houve quem no PS se aggiornasse à malinha, mas Soares logo lhes cortou as vazas,  apontando para o Rosa & Teixeira.  Dado a outras coisas, Manuel Alegre nunca embarcou nestes batéis. 

 

Era o tempo em que não se sabia quem era padre ou um ex-seminarista convertido ao pecepismo, isto é, quando através do PC, pingava alguma coisa. Agora, são todos renovadores de si próprios, mas prefiro a sinceridade de Jerónimo.

 

A Mariconera era a outra versão. Mais popular, vendia-se em montões e ao quilo nos armazéns do Conde-Barão ou na Rua dos Fanqueiros e obedecia a uma forma mais rectangular. Não possuía alça para ser usada a tiracolo e embora existissem algumas em pele, geralmente o pergamóide ou o plástico mais descarado faziam a vez.  Possuíam um zip sempre a abrir e a fechar, num tique nervoso que contaminou milhares de aderentes. De lá saíam bilhetes cor de rosa do Metro, outros de várias cores da Carris - amarelos, azuis, rosa ou verdes -, o corta-unhas, a lima metálica de ponta curva para limpar o surro, um pente do nécessaire, cautelas da lotaria, chaves do Totobola, o BI, o porta chaves da FEPU (para quem não saiba, o primeiro travesti do PC + MDP/CDE + FSP, de seu nome Frente Eleitoral Povo Unido). A Mariconera era usada debaixo do sovaco e que me lembre, o único fulano da direita que se atreveu a isto e às infalíveis patilhas e gravatas-bacalhau às riscas, foi o prof. Mota Pinto. 

 

Nos "dirigentes de classe" - no tempo em que batiam palmas sincopadamente, ao estilo "só-viético" - , a Mariquette compunha o todo da moda: camisola em mousse  - bordeaux ou verde-seco - enfiada nas calças de ganga "à jovem", botinha de salto e fecho com zip, casaco aos quadrados pré-Burberry's em vários tons de castanho e mel - abas "avião" -, óculos de grossos aros em massa negra. O toque chique era dado pelo cabelo grisalho já a denotar calvície na fronte - como agora se vê em Balsemão e Santana - e bastante comprido e enrolado atrás.  Antes da epoca do Linic, a caspa semeava de neve os ombros ligeiramente enchumaçados, mas ninguém levava a mal. Adereços indispensáveis eram os jornais Avante!, Diário de Lisboa ou para os mais "propênsicos" ao frentismo, o Jornal. O basista proletariado ficava-se pelo Avante!, Gaiola Aberta - cuscando as tetas e trancas primorosamente desenhadas pelo grande Vilhena -, pela Sentinela ou por um dos desportivos. 

 

Outros tempos, mas as mesmas gentes.

publicado às 16:37

Bangkok II: a aranha capitalista na teia vermelha

por Nuno Castelo-Branco, em 10.05.10

O estranho Dr. Weng

 

Dir-se-ia qua o curso de quatro décadas marca o ritmo de ascensão e queda dos regimes portugueses, acompanhando o viço e a imparável decadência do corpo dos homens que os criaram. Assim foi entre 1870 e 1910, tal como viria a acontecer com a 2ª República que entre os anos trinta e setenta conheceu o fulgor e o ocaso. Neste Portugal de fim de ciclo de uma geração que acordou com uma vintena de anos para a política do fim da década de sessenta - a chamada geração do Maio de 68 -, parece chegar o tempo de um último impulso, talvez a derradeira vaga que finalmente cumpra todas as teimas e superstições que fizeram o seu tempo de correrias, pulsões várias e ditames que condicionariam o futuro que hoje vivemos e ao qual tristemente nos resignámos. Geralmente bem instalados na vida e beneficiando precisamente daqueles privilégios que há quarenta anos quiseram retirar à casta dirigente e apenas uma geração mais velha - o nem sempre terno e prodigamente desnecessário confronto do filho que visa substituir o pai -, perdem aquele sentido de racionalidade mínima que ainda os faz correr atrás de um tempo perdido e sob o qual caiu uma pesada maldição da História.

 

Querem uma revolução a todo o transe. Pouco lhes importa que tal hecatombe signifique a destruição da tranquilidade de povos inteiros e do desaparecer de princípios e de uma ordem social - sempre ligada ás negregadas coisas do espírito - que jamais poderão compreender e muito menos ainda, aceitar como natural. Não querem perder o último relampejar de energia que uma simples mirada matinal ao espelho desmentirá de forma inapelável. Pior ainda, fogem a engendrar as sublevações nos seus próprios países, onde impera a sua própria ordem que  garante os lugares cativos e julgados como direitos inalienáveis de conquista. Não vêem entre os seus povos, qualquer necessidade de corrigir as flagrantes injustiças que prepotentemente instalaram sob o argumento de uma "libertação" há muito esquecida ou ignorada pelas duas ou três gerações que se lhes sucederam no planeta. São sátrapas de uma colossal fortificação, na qual se entra apenas por uma estreitíssima fresta que é aberta a um certo número de serviçais de confiança que não ofereçam qualquer ameaça às coutadas ciosamente guardadas. Substituindo o uniforme feldgrau de Erich Koch por aquele outro que os torna anónimos em qualquer rua de um mundo menos globalizado do que pensam, no ar fresco dos gabinetes reúnem com os seus pares e com um ou outro recém-chegado às lides conspirativas. Infalivelmente atrelados às carroças dos interesses económicos e financeiros que desmentem a ladainha revolucionária esquerdizante de tempos idos, almejam fazer obra fora de portas, precisamente aquilo que jamais conseguiram impor entre os seus conterrâneos. Quem não se recorda da patética chegada de J.P Sartre a uma esquizóide Lisboa de 1974-75, aconselhando o rápido acatar pelos atónitos portugueses, de um modelo há muito falido e destestado que a Europa de 1968 acabara por vencer precisamente nas ruas de Paris?

 

Agora é que é! Se há uns anos a promessa surgia nas novas independências africanas que conduziram a genocídios jamais vistos e que seguem o seu curso no preciso momento em que o leitor passa a vista por estas linhas, quebrada a magia da novidade, o alvo passou a ser alietório. A Nicarágua serviu durante algum tempo, tal como os "românticos" encapuzados da vasta baía de La Plata dos anos setenta e oitenta. Saltaram para a curta e sangrenta experiênciakhmer e afundando-se reputações e auto-reconhecidos prestígios num oceano de sangue e pilhas de ossos esmagados, encontraram na têxtil cobertura craniana de Arafat, o ícone das "lutas", "contradições", "movimentos de massas" e "dinâmicas" anti-imperialistas. Completamente dependentes desse imperialismo económico que lhes fornece todo o conforto dos ambientes climatizados, relógios de montra de ourivesaria e espadão a leasing - do Estado - na garagem, insistem em conspirar a expensas de outrem. À volta de uma lauta mesa, infindavelmente falam dos gloriosos assaltos pela calada da noite a desertas academias, departamentos estatais ou estabelecimentos comerciais, à cata do quinhão que o "imposto do saque revolucionário" obrigava. Ignorados na sua terra, dedicam os seus esforços a rever-se na pele de outros que mais jovens, incrédulos e infinitamente menos bafejados pela sorte, facilmente se sugestionam pelo linguajar de frases feitas e proferidas pela boca do branco que muito pode, tem e talvez lhes deixe umas migalhas.

 

(Continua)

publicado às 00:01

Ainda a retórica democrática de algibeira

por Samuel de Paiva Pires, em 01.03.09

Na caixa de comentários ao meu post, André Ferreira faz um excelente diagnóstico:

 

Caro Samuel,

Quando olhamos à nossa volta e nos perguntamo sobre o que vemos não podemos deixar de verificar a decadência instalada em Portugal! Essa decadência origina-se num sistema democrático débil, baseado em interesses sectários e onde os partidos já pouco dizem no sentido em que não representam hoje o País real. O PS tenta confundir-se com uma imagem da democracia que não é sua.

Arriscaria ainda mais dizer que, pudendo ter sido importante na transição democrática, não foi sequer o mais importante dos partidos. O então PPD, por exemplo, foi-o em maior extensão: teve de provar a democracia, governando sempre nas épocas de grande adversidade. Com um fundador a morrer em circunstâncias ainda hoje obscuras, teve de governar num país socialista de Constituição e limitado pelo PREC, onde forças anti-democráticas como o PCP detinham grande força. Ou o CDS, que foi dado como descendente do regime cessante, perseguido e assaltado como se de vulgar bando criminoso se tratasse.

Outro aspecto interessante é a propaganda: os partidos democráticos de verdade não têm tais máquinas propagandísticas, nem se declaram donos da verdade absoluta. Não agem de forma goebeliana contra os demais e não crêem em formas de democracia dirigista.

publicado às 22:18






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