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À atenção de camilo-lourencistas e afins

por Samuel de Paiva Pires, em 27.01.14

Como diria o Dragão, "há marasmos mentais que eu, de todo, dispenso." Um deles, muito em voga, tem a ver com a tão propalada necessidade de aumentar a produtividade, que por sua vez contribui para aumentar a competitividade, o que levará, inevitavelmente, ao crescimento económico. Ora, na prática a teoria é outra, por uma razão muito simples: nós estamos inseridos numa zona monetária incompleta e frágil, na terminologia de Paul De Grauwe. Em qualquer zona monetária deste tipo, i.e., onde não existe uma união orçamental nem mecanismos que permitam, por via da redistribuição, disseminar a actividade económica de forma a corrigir desequilíbrios e a evitar ou, pelo menos, tornar menos dolorosos os choques assimétricos a que uma zona monetária destas está por defeito sujeita, a economia mais forte torna-se dominante e gera excedentes à custa dos défices das economias mais fracas. Tal como no Sistema de Bretton Woods os EUA tornaram-se o hegemon, e no Sistema Monetário Europeu esse papel foi desempenhado pela Alemanha, com o Bundesbank a definir as políticas monetárias que eram do interesse da Alemanha, obrigando os restantes países a ajustarem-se a estas, na União Económica e Monetária é novamente a Alemanha o país dominante, consequentemente, sendo o único país com uma política monetária autónoma - com a agravante de, na UEM, termos uma moeda única.

 

Ora, como ainda recentemente assinalou Andrew Moravcsik, o euro está subvalorizado em cerca de 40% em relação à economia Alemã. Quanto aos países da periferia, é razoável estimar que esteja sobrevalorizado também em cerca de 40%. As implicações da entrada do euro foram diversas nestes dois tipos de países. Enquanto na Alemanha aumentou muito a competitividade externa, no caso português diminuiu-a acentuadamente, conforme Luciano Amaral faz notar, colocando ainda a dívida externa portuguesa numa trajectória insustentável, como Ricardo Cabral evidencia

 

O que é que isto significa? Que não há, por muito que queiram, reformas estruturais - por mais que estas sejam necessárias e devam ser encetadas, o que não contesto, bem pelo contrário - e aumentos de competitividade que nos valham se a UEM (e a UE) não for reformada ou pura e simplesmente dissolvida, ou se nós não nos retirarmos desta. Nem sequer uma reestruturação da dívida, mantendo-se tudo o resto igual, resolverá os nossos problemas, podendo apenas adiá-los e a uma nova crise por mais alguns anos. A Alemanha está muito confortável com a sua posição económica dominante, que Hans Kundnani caracteriza como narcisimo económico, e sendo também a potência que, como Ulrich Beck assinala, manda na União Europeia, não é de esperar que altere a sua linha política. Acreditar que, com estes apertados garrotes, é possível aumentar a produtividade e a competitividade e gerar um crescimento económico que leve a uma diminuição acentuada do nível de desemprego e a gerar excedentes que nos permitam pagar a dívida, ou seja, acreditar que podemos tornar-nos iguais à Alemanha, é apenas, como Peter Hall afirma, "outra daquelas miragens que se atravessa no caminho de soluções genuínas para os problemas."

publicado às 15:49

Vai vir charters de crescimento com a extinção dos feriados

por Samuel de Paiva Pires, em 11.05.12

Carrega Álvaro Santos Pereira! (clicar para ampliar)

 

publicado às 13:15

Feriados

por Samuel de Paiva Pires, em 20.06.10

(imagem picada daqui)

 

Não é por nada, mas esta história toda em torno dos feriados já chateia. Não há nada mais importante para discutir? O défice, a dívida externa, por exemplo. O verdadeiro problema não é a existência de feriados a mais ou a menos. O verdadeiro problema do país é o mesmo desde há 900 anos: falta de produtividade. A juntar a outro relativamente mais recente: Estado a mais. Podíamos não ter feriado algum, nem férias, que mesmo assim não conseguiríamos pagar o despesismo estatal. E não é a cortar em feriados que se vai aumentar a produtividade. Essa passa pela mudança de mentalidades, por maior liberdade económica e, por conseguinte, menor peso do Estado na economia e no bolso dos trabalhadores e empresas.

 

A única razão por que se discute esta questão é apenas para continuar a manter um Estado que promove a desigualdade em favor dos bolsos de milhares de "boys" e funcionários públicos que pouco ou nada fazem para além de serem fantoches de jogos eleitoralistas dos primeiros - aliás, não é por acaso que a proposta vem da bancada socialista. Porque, perguntem a qualquer pequeno ou médio empresário, não há horários, feriados ou fins-de-semana quando se tem um negócio próprio. E eu sei do que falo, pois exemplos de pequenas empresas na família não me faltam.

 

Deixem-se desta discussão de um fait-divers e lembrem-se do essencial: reduzir o Estado e aumentar a produtividade (do sector público principalmente, que o privado está cada vez mais desmoralizado e em crise pelo agravamento de impostos com o objectivo de pagar as asneiras dos (des)governantes - e a concorrência que gera aumentos de produtividade no sector privado também só se consegue num ambiente em que os impostos não penalizam demasiado as empresas). Pelo caminho, concentrar os esforços do Estado naquelas que devem ser as suas tarefas primordiais - saúde, educação, segurança e justiça -, também não era mal pensado.

publicado às 21:55






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