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O desastre do Mal calvinista

por João Pinto Bastos, em 17.12.12

Num país fortemente cunhado por uma cultura de raiz protestante, como é manifestamente o caso dos EUA, o crime recentemente ocorrido não surpreende de todo. A noção do Mal, deficientemente arrimada num conceito visível e palpável de comunidade, leva, com alguma facilidade, a extremos criminais deste género. Todas as pessoas são más, logo, todos nós, com maior ou menor razoabilidade, podemos portar uma arma, não importando as consequências que esse suposto direito de defesa pessoal possam carrear para o todo constituído pela colectividade. A liberdade nos EUA convive facilmente com a restrição e, mais cedo ou mais tarde, este direito, elevado ao altar da intocabilidade por alguns tolos, será naturalmente restringido. Seria bom que, neste aspecto, não emulássemos o pior da tradição liberal-saxónica. Há coisas que não se copiam nem se imitam, simplesmente criticam-se.

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publicado às 16:39

I'll take the Jag

por João Quaresma, em 28.11.12

 

Pedro Arroja, no sempre interessante Portugal Contemporâneo:

 

«Pelo meio da manhã de hoje, eu estava a dizer que o pensamento protestante é meio-aldrabão, senão mesmo, às vezes, aldrabão inteiro. Foi quando recebi um telefonema do Joaquim, ao mesmo tempo que ele colocava um post no PC para me ajudar nesta tese. Naturalmente que a aldrabice, na esmagadora maioria das vezes, não é intencional por parte de quem a profere. Trata-se de uma questão cultural.

Fartámo-nos de rir ao telefone. O Joaquim vinha dizer-me que eu estava muito próximo da verdade quanto ao pensamento protestante ser mentiroso, e depois imaginámo-nos a confrontar a Troika. Eles, com aquele ar muito sério típico do protestantismo a dizerem-nos: "O principal problema do vosso país é o défice orçamental e portanto têm de reduzir a despesa pública aqui, ali e acolá, e aumentar este imposto, e mais aquele e ainda aqueloutro...".

E, depois de os ouvirmos em silêncio, chegada a altura de sermos nós a falar, eu e o Joaquim a rirmo-nos a bandeiras despregadas e a dizer-lhes: "Isso é tudo mentira...vocês são uns aldrabões... o nosso principal problema não é nada o défice orçamental, mas o défice externo ... a solução prioritária não é nada o aumento dos impostos, mas o aumento das exportações, não é a redução da despesa pública, mas a redução das importações. Portanto, se vocês, ou quem vos manda aqui, querem continuar a vender BMW's para cá vão ter de montar cá uma fábrica, ou então a gente compra Jaguares aos ingleses..."»

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publicado às 01:41

Uma história ainda muito mal contada

por Samuel de Paiva Pires, em 06.11.12
Pedro Arroja, "O único país":


«A menção da Guerra, leva-me a reiterar uma afirmação que já tenho feito várias vezes. Na modernidade, as grandes catástrofes civis - sob  a forma de guerras civis - vieram sempre da pátria do protestantismo luterano - a Alemanha. A Segunda Guerra Mundial começou por ser uma guerra civil contra os judeus. Quanto às grandes catástrofes financeiras ou económicas, como a Grande Depressão ou a actual crise  financeira iniciada em 2008, essas vêm sempre dos países do protestantismo anglo-saxónico.


Aquilo  que eu quero transmitir é que a origem da alavancagem presente de todos os países ocidentais não está em Portugal nem na Grécia. São os grandes países protestantes os mais alavancados, mas eles escondem, porque está na sua cultura esconder, ao passo que nós pomos a roupa suja toda à janela. Ao pé deles, e em termos de alavancagem, nós e os gregos parecemos meninos de côro. 

 

E o mais alavancado de todos, o pai e o rei da alavancagem do post-Guerra, aquele que mais tem vivido acima das suas possibilidades, não nos últimos dez ou quinze anos, mas há pelo menos quarenta, desde que violou o Acordo de Bretton Woods, é a América. A presente crise financeira vai lá chegar e nessa altura é que vai ser a sério.»

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publicado às 21:06

Ainda a ideologia, a política e a religião

por Samuel de Paiva Pires, em 01.09.09

 

(Henrique VIII, imagem tirada daqui)

 

Não tenho sequer um centésimo do arcabouço intelectual do Corcunda, que conheço pessoalmente e que respeito pela coerência, inteligência e pela simpatia que o caracteriza. Faltam-me leituras, muitas leituras, e estudo, muitas horas de estudo, para almejar sequer colocar a discussão no complexo patamar a que já nos habituaste (e saúdo o facto de teres voltado a escrever, julgo que após umas merecidas férias, aproveitando para confessar que estou honrado por ter sido em referência a uma discussão que envolveu a minha pessoa) que, em minha opinião, só encontra paralelo na blogosfera lusa na pena digital do Professor Maltez e do Miguel Castelo-Branco.

 

Considero que o diálogo e a crítica são das mais saudáveis e nobres actividades humanas. Não posso, no entanto, deixar passar em branco extrapolações que não fiz. Na realidade, concordo totalmente com os segundo e terceiro parágrafos do teu post. Como mera curiosidade, diga-se de passagem que só não fui baptizado protestante porque o Bispo de Londres anuiu ao pedido dos meus pais para que o padre de Bolungarvik me baptizasse em casa, segundo o rito católico. Se o facto de ter nascido em um país protestante (Islândia) de alguma forma condicionou a minha forma de estar, é uma incógnita. Mas sem dúvida que o liberalismo e a própria democracia liberal estão intimamente ligados ao protestantismo, e os meus pontos de vista talvez estejam mais próximos deste, no que à teoria política diz respeito.

 

Comecemos pelo que afirmação do Corcunda de que "ao contrário do que supõe o Samuel, ao liberalismo nada pode ser imputado no sentido de separação da esfera política e religiosa". Eu não suponho nada disso. Até o liberalismo de inspiração francesa é mais religioso que o catolicismo, e o marxismo é tão ou mais milenarista e apocalíptico do que o cristianismo. Ambos lemos a Morte da Utopia do Gray, sabemos do que falamos, e o Corcunda muito mais do que eu,  portanto esta confusão não tem sentido algum. Eu apenas disse que "simplesmente encaro a religião como um assunto que apenas diz respeito à vida privada de cada indivíduo e, como liberal que sou, encaro a Igreja como um grupo social como outro qualquer, com total direito a exprimir as suas opiniões". E como decerto sabes, o protestantismo, tendo a liberdade individual como máxima, permite que cada qual encontre o seu caminho para Deus da forma que preferir, daí resultando a intensa proliferação de Igrejas protestantes extremamente diversificadas. Já agora, se isto é bom ou mau, não me compete a mim julgar. Importa no entanto notar que, pela negativa, os países protestantes se vêem a braços com a proliferação de outras religiões que se pautam pela intolerância e ameaçam a liberdade individual. O protestantismo é naturalmente caracterizado pela descentralização (uma característica das democracias liberais dignas desse nome), por oposição ao catolicismo de inspiração centralizadora - mais uma vez, não estou a criticar negativamente, até porque se assim não fosse talvez a independência Portuguesa garantida por D. Afonso Henriques não tivesse sido possível - obviamente foi o beneplácito papal que a sacralizou - e até talvez a aventura portuguesa dos Descobrimentos não tivesse tido o sucesso que teve - não nos esqueçamos da missão civilizadora imbuída do carácter apostólico.

 

Quanto à "própria ideia de que a comunidade política não se deve submeter a uma concepção de Bem (que o Samuel parece aceitar como axioma, vindo sabe-se lá de onde)", é muito fácil. É que o Corcunda ou o Afonso Miguel, como os integralistas e certos direitistas, pugnam por uma completa submissão da política à religião católica e à concepção de Bem Comum que dessa advém. Isto é tão rousseauniano quanto utilitarista (Helvétius, Bentham), e está tão presente nas ideologias nazi como comunista. Schumpeter ou Berlin demonstraram magistralmente que não há qualquer Bem Comum ou Vontade Geral. Eu não sou colectivista ou totalitarista e, como tal, não posso tolerar um sistema que por englobar toda a sociedade nas suas concepções se torna intolerante. Quem é que tem mais legitimidade para definir qual a concepção de Bem que me satisfaz? Eu ou os outros? Lamento, para mim continuará a ser a minha pessoa. Portanto se esta "é uma ideia política luterana e que seria impossível em qualquer contexto religioso não-protestante", ainda bem que vivemos numa democracia liberal e que mesmo pensando assim tenho a liberdade de continuar a ser um católico, pouco praticante, confesso, mas que encara a Igreja como um actor social como qualquer outro - e se me quiserem chamar de herege, estejam à vontade, mas parece-me que a Igreja Católica é, hoje em dia, mais tolerante do que muitos daqueles que mais dizem defendê-la e que por se tornarem dogmáticos e intolerantes à crítica, acabam por prejudicar a imagem desta. Bom, mas não vale a pena ir tão longe, é que não é só hoje em dia. A tolerância que o Corcunda diz que os liberais tornaram em religião de Estado, é mais premente no catolicismo do que no protestantismo, ou não tivesse Gil Vicente caracterizado magnificamente essa Nobre personagem que pecava mas que a Igreja perdoava a troco de dinheiro. Aliás, em que país protestante é que José Sócrates ainda estaria no poder depois de ter mentido acerca da licenciatura? Nenhum. O protestantismo, porque contratualista, não admite desvios ao que se contrata. Quem sou eu para o dizer, mas talvez o conceito de tolerância seja um pouco mais multidimensional e menos linear do que o que o Corcunda parece pensar.

 

Quanto ao último parágrafo do teu post é que me parece que acaba por fazer cair pela base a construção dos dois anteriores. Logo a começar, eu apenas afirmei que não gosto de misturar religião com política (porque discussões do género estão condenadas à partida a não levar a lado algum e a acirrar ódios irracionais na maior parte das pessoas), e se digo que a Igreja é um actor social como qualquer outro e, por isso, com direito a exprimir as suas opiniões, obviamente derivadas do elemento religioso que dá consistência à sua existência e acção, naturalmente que a Igreja tem influência na política. Isto parece-me lógico, mas talvez não me tenha exprimido bem.

 

Mas o que me parece mais curioso e caricato é esta extrapolação "Afirmar que se é tradicionalista “anglo-saxónico” e que se prefere um Estado laico é o mesmo que um comunista que adora a economia de mercado". No meu post, refiro-me ao método continental e afrancesado da revolução, por oposição ao método tradicionalista anglo-saxónico de incorporação das revoluções e da continuidade, ideia eminentemente conservadora, sobre a qual Ortega y Gasset discorreu, e era a isto que me referia.

 

Posto isto, o Corcunda conclui dizendo que (peço desculpa pela repetição, apenas para enquadrar) "Afirmar que se é tradicionalista “anglo-saxónico” e que se prefere um Estado laico é o mesmo que um comunista que adora a economia de mercado. Haveria alguma possibilidade de haver conservadorismo britânico num Estado Laico? Essa é que não passa mesmo pela cabeça de ninguém…". E com esta extrapolação é que fico confuso. Ora se "A própria ideia de que a comunidade política não se deve submeter a uma concepção de Bem (que o Samuel parece aceitar como axioma, vindo sabe-se lá de onde) é uma ideia política luterana e que seria impossível em qualquer contexto religioso não-protestante", significa que, logicamente, eu estarei mais próximo do protestantismo (e do ponto de vista da teoria política não me parece que hajam dúvidas, depois do que acima expus) e do conservadorismo anglo-saxónico. Invertendo a questão, parece-me então que talvez não passe mesmo pela cabeça de ninguém que se possa ser conservador e tradicionalista anglo-saxónico e em simultâneo acerrimamente católico. Como há dias escreveu o Afonso Miguel em relação à minha pessoa, ou não é assim e não era nada disto que o Corcunda queria dizer? É provável...

 

Ou afinal o protestantismo e o catolicismo são mais idênticos do que se possa pensar? Ou eu não percebo nada disto? Também é provável, portanto, desculpem lá qualquer erro ou incoerência.

 

(P.S. - Agradeço à Cristina por se ter ocupado das nomeações e prémios nos últimos dias. E agora, se me permitem, vou voltar para a minha tese sobre a política externa portuguesa).

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publicado às 20:58






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