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A política gangolana de António Costa

por John Wolf, em 17.09.18

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António Costa é europeísta. Por isso decidiu vestir calças de Nimes (Denim, De Nimes, vide origem da ganga, googlem...) para ser recebido no aeroporto de Luanda por Manuel Augusto Domingos, ministro dos negócios estrangeiros de Angola. Mas o primeiro-ministro de Portugal também pode ser atlanticista - as blues jeans tanto podem ser da Levi´s ou da marca Lee - ou seja, nada contra John Wayne e os cowboys americanos. No entanto, o primeiro-ministro quebrou o protocolo. Passou a ferro e deixou queimar o único protocolo que verdadeiramente interessa. A qualidade da abstracção representativa, a dignidade que os Portugueses merecem que seja espelhada no principal e mais importante embaixador de Portugal - os Portugueses não gostaram de ver o desfile na passerelle. Mesmo a família mais remediada de Portugal, quando convidada para o baptizado da vizinha coxa e vesga, veste a melhor camisa que tem e calça o único par de sapatos de ocasião que tem. Mas não, António Costa entrou em modo relax, chill-out, a fazer bluff - a fingir não dar grande importância a Angola e a fatia grossa que pode ser talhada para Portugal e alguns socialistas mais empreiteiros do que outros. Eu entendo que a Geringonça que o colocou em tal posição de autoridade e titularidade pública é, em si, uma manta de retalhos. Nesse caso, serviu mal aqueles partidos que o levantaram em ombros de governação. As calças de ganga têm uma conotação mais UNITA do que MPLA, mais colonizadora do que nativa, e isso já não se usa. O pós-colonialismo é doutrina com falhas conceptuais graves. Se Costa quisesse espelhar as Catarinas e os Jerónimos da sua praça parlamentar, levava consigo alguma "merda na algibeira" e uma tê-shert com a cara estampada de Che ou Maduro. Assim, com a farda a meio-gás, dá ares de pertencer a um gangue com jogadas espertas e truques na manga. Esta política da ganga, gangolana, não serve. Não tem a medida certa. O respeitinho é muito bonito.

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publicado às 18:08

O prisioneiro de guerra Rui Rio

por John Wolf, em 02.09.18

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O senador John McCain fez mais oposição política nas suas exéquias fúnebres do que Rui Rio em toda sua vida partidária. António Costa tem muita sorte em não ter um morto-vivo deste calibre para lhe fazer a vida negra. O senador republicano, na sua hora final, reivindicou o espírito da América. Proclamou, do termo dos seus sete palmos de terra, que existe vida para além da fractura, esperança para além da ganância e um destino maior do que aquele promulgado por passageiros clandestinos. Mas existem semelhanças entre John McCain e Rui Rio. Um foi prisioneiro de guerra e o outro foi tomado como refém pelo Partido Socialista. Para todos os efeitos práticos, o Partido Social Democrata foi anulado pela toada autofágica de Rio. No entanto, um lider partidário que se agarra a um lenho de Monchique e dispara pólvora sêca, embora inconscientemente, e por não existir no firmamento político, deixa a porta escancarada para que a Geringonça se estatele no asfalto. Sem oposição digna desse nome, os socialistas mais rapidamente executam a sua própria sentença. Não me surpreende que até Santana Lopes se faça ao piso, com todos os riscos e escorregadelas que isso comporta. O vácuo deixado pelo assoreamento do Rio deixa o caminho aberto para propostas mais interessantes, de sangue novo, audaz e destemido. Na ala liberal já nasceram forças a ter em conta. E por defeito de percepção e prática desviante, os ideais liberais encontram agora terreno fértil para a sua refundação, para o enunciar do espírito dos filósofos originais, fundadores. À esquerda, a regeneração não acontece. Os socialistas voltam sempre à mesma equação inchada de ficção e facilidades. Mas serão as intermitências da vida e morte que permitirão discernir os pequenos dos grandes, os políticos de algibeira dos estadistas. McCain representou bem esses ideais de grandeza. Veremos se o seu legado servirá para distribuir lições válidas. Aqui ou acolá.

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publicado às 18:35

O 25 de Abril da Venezuela

por John Wolf, em 05.08.18

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Sobre a legitimidade da resistência armada do povo venezuelano aos grilhões do regime de Maduro, o presente arranjo governativo da República Portuguesa parece ter memória curta. Portugal também realizou um atentado a 25 de Abril de 1974, em nome da liberdade e dos princípios democráticos que tanto apregoa. Talvez devido ao facto de Portugal ser refém das centenas de milhares de portugueses que vivem nesse Estado, o ministério dos negócios estrangeiros tome o partido errado e se coloque ao lado de um ditador que mata à fome o seu povo. Na própria Constituição da República Portuguesa a figura de acção directa e defesa contra agressões estão contempladas. Embora as mesmas aludam ao conceito de ameaça e violação da integridade soberana perpetrada por forças estrangeiras, a verdade é que a História já demonstrou de um modo inequívoco que muitas vezes os maiores inimigos são de origem nativa. Maduro deve ser considerado um traidor do seu povo. O resto é conversa política e normativamente correcta. Mas a política e a História não estão escritas em manuais. É na rua que elas acontecem. Viva o povo de Venezuela!

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publicado às 21:10

Do processo de corrupção moral do Bloco de Esquerda

por Samuel de Paiva Pires, em 28.07.18

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Sobre Ricardo Robles, certamente, e é o mais escandaloso no caso em apreço, podemos falar na distância que vai daquilo que se proclama àquilo que se pratica, no sentimento de impunidade de quem se assume defensor de certas virtudes públicas, mas que na vida privada faz o mesmo que condena em terceiros, numa variante do provérbio “bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, apetecendo até invocar Lord Acton, para quem o poder corrompe, ou ainda Montesquieu, que nos ensinou que “todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”.

 

Mas mais interessante até que os negócios de Robles, é assistir às tergiversações bloquistas a seu respeito, particularmente ilustrativas do que é uma certa esquerda que se auto-proclama detentora de uma qualquer superioridade moral que, alegadamente, a diferencia não só dos restantes posicionamentos políticos como de outros partidos e actores políticos individualmente considerados, mas que, na realidade, se tiver oportunidade, toma atitudes idênticas às daqueles que critica recorrentemente. Não é novidade que os parceiros geringonceiros do PS talvez tenham alcançado a maioridade política ao, finalmente, perceberem que a política não pode ser só pregar a suposta superioridade moral e pensar de forma absolutista, sendo muito mais a arte do possível, em que o exercício do poder requer a capacidade de negociar e encontrar compromissos. Os silêncios, nos últimos anos, dos geringonceiros BE e PCP sobre diversas matérias denotam isto mesmo. Mas coisa bem diferente é a tentativa de spin a respeito de factos que, além de reflectirem uma gritante hipocrisia (as posições políticas de Robles sobre o alojamento local e os negócios que realiza neste âmbito), objectivamente considerados, são censuráveis em qualquer pessoa, independentemente do partido em que milite, e que, obviamente, diminuem - e muito - a legitimidade política do político em causa.

 

Sabemos há muito que, como dizia Sir Humphrey Appleby, “where one stands depends upon where one sits”. Só não estávamos habituados a ver esta atitude no BE de forma tão explícita. Está, assim, concluído o processo de corrupção moral do BE, mais uma grande vitória de António Costa e do PS, mas que aproveita especialmente à direita portuguesa. Talvez os bloquistas ainda não o tenham percebido, mas este episódio coloca em causa todo o edifício da sua praxis política e terá notórias consequências no futuro do partido. Mas compreende-se que estejam ocupados com o debate, a decorrer enquanto escrevo este texto, subordinado à temática “propriedade é roubo”.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 15:56

A eutanásia não morreu

por Samuel de Paiva Pires, em 29.05.18

 

Lamentavelmente, por parte de muitos opositores à eutanásia, assistimos nos últimos dias a inacreditáveis distorções, homens de palha e falsidades. É frustrante a dificuldade em debater racionalmente e de forma civilizada na esfera pública portuguesa. 

 

Muitos dos opositores da eutanásia querem obrigar doentes em circunstâncias de dor e sofrimento intoleráveis, cuja morte está no seu horizonte próximo, a prolongar a sua agonia. Fazem-no porque, muitos deles, entendem que, estando os próprios ou os seus familiares em idêntica situação, nunca optariam pela antecipação da morte. Por convicção ideológica ou religiosa, por terem meios para suportar cuidados paliativos, que entendem ser a panaceia para quem se encontra em tamanho suplício, ou por questões de consciência, esta é uma escolha que estão aptos a fazer. Ninguém os condena por isso. No entanto, quando lhes é pedido que pensem e reflictam fora da sua esfera individual, no sentido de considerarem outros seres e enquadramentos éticos igualmente merecedores de consideração, não se esforçam para os compreender e demonstram a mais vil das intolerâncias. E, enquanto o fazem, condenam aqueles que vêem na eutanásia um acto de verdadeira e pura bondade, arrogando-se os únicos conhecedores do sentido desta expressão. Como se esta obstinação, a caracterização dos defensores da eutanásia como "nazis", o ecoar de slogans como "pela vida" e "contra a cultura da morte" e arrogarem-se o monopólio do "amor" e da "compaixão" contribuíssem de alguma forma para a elevação deste debate. Ademais, afirmam a existência de uma rede de cuidados paliativos, quando estes escasseiam no Serviço Nacional de Saúde (destaco o número de 376 camas para todo o país), que, assim, acaba por denegar o tratamento de todos os doentes que deles necessitam. Claro está que este não é um problema (pelos vistos, nem sequer uma preocupação) para quem tem possibilidade de recorrer às unidades de cuidados paliativos oferecidas pelo sector privado - onde, diga-se de passagem, devem ser uma área de negócio bastante lucrativa, mas talvez a deputada Isabel Galriça Neto um dia nos possa esclarecer a este respeito.

 

Esperemos que a continuação deste debate o recentre no que é realmente importante, e que, afinal de contas, consiste na possibilidade de alguém, livre, consciente e esclarecidamente, em circunstâncias legalmente delimitadas, poder solicitar o abreviamento do seu sofrimento físico, sem que isso lhe retire qualquer dignidade, sem que daí advenha qualquer ataque aos beatos princípios de quem, ainda que na política seja frequentemente maquiavélico e pouco ou nada católico, prefere ignorar a dura realidade dos serviços de saúde, na área dos cuidados paliativos, em Portugal, bem como, e acima de tudo, negar a possibilidade de alguém poder escolher a eutanásia. 

 

Uma das virtudes da democracia liberal consiste no facto de as maiorias de hoje serem as minorias de amanhã. Felizmente, a questão da eutanásia não morre aqui. Quer beatos, comunistas e deputados permeáveis a certas pressões gostem ou não.

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publicado às 23:30

O negócio da Eutanásia

por John Wolf, em 29.05.18

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Se me permitem, também gostaria de oferecer alguns considerandos sobre o debate binário que corre em relação à Eutanásia. O interruptor on/off parece ser a única dimensão da discussão. Numa primeira análise e leitura da opinião pública, as hostes dividem-se fervorosamente entre a cessação do sofrimento e o respeito pela ordem natural da vida - sem uma mão humana a desligar a ficha. Esqueçamos essa matriz por uns instantes e concentremo-nos em algo um pouco mais cínico - o negócio. O que sai mais em conta ao Estado e ao Serviço Nacional de Saúde? Cuidados paliativos continuados ou a droga da morte assistida? O debate proposto por bancadas partidárias não é ingénuo - tem razão monetária de ser. Inscreve-se no Orçamento de Estado. Por detrás da verborreia existencial com laivos de filosofia de bolso, choradeiras de liberdades e garantias, o corpo é meu, a vida é minha, lá no fundo dos ministérios, depois daquele longo corredor resfriado pela marmorite aguda, encontramos os gabinetes de cálculo e folhas Excel. Esta história da Eutanásia é uma nova oportunidade do caraças - de negócio. É quase um Simplex. Por quê não pensamos nisto antes? Deixemo-nos de lamechices e atiremos à arena parlamentar e ao executivo do bem comum este caderno de encargos. Eles hão-de encontrar a veia para a execução. Sofrimento. Death and Taxes.

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publicado às 09:49

Só nos faltava o Soares

por John Wolf, em 04.05.18

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João Soares lamenta que José Sócrates "não foi tratado com a dignidade devida enquanto arguido e, agora, enquanto acusado"Estamos conversados em relação ao sentido de Estado e Ética do filho do único e exclusivo fundador da Democracia Portuguesa. O ex-ministro da cultura deveria prostrar-se perante os cidadãos portugueses que foram vilipendiados e agastados por toda a espécie de danos alegadamente causados por José Sócrates. Deve haver muito bom socialista a sentir um certo desconforto, um aperto no peito, um nó na garganta. Agora que o arguido rasgou o cartão de sócio #44 e se emancipou do Largo do Rato, sinto, face ao ultraje, e à traição de que foi alvo da parte de tantos "amigos para sempre", incluíndo António Costa e João Galamba, que venha despejar na rua uma quantidade de roupa suja de ex-camaradas. Por outro lado, a mudança de orientação programática do Largo do Rato em relação ao inexcedível ex secretário-geral Sócrates significa o seguinte - estão-se a cagar para o segredo de justiça (parafraseando o enunciador Ferro Rodrigues) e já devem saber que a condenação é um dado adquirido. O Mário Soares também pernoitou em Paris. Mas isso é outra conversa.

 

foto: créditos PÚBLICO

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publicado às 19:30

Cultura Zero

por John Wolf, em 05.04.18

 

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Portugal sofre de pseudo-elitismo crónico. O mito sagrado da cultura tem servido fetiches de diversa ordem, mas sobretudo para invocar poderes sobrenaturais e reclamar dinheiro dos contribuintes. Em nome de causas maiores, do bem público e do dever do Estado, um conjunto alargado de "estruturas" (termo querido da Catarina Martins) tem recebido, a fundo quase perdido, somas interessantes para tirar o povo da sua ignóbil miséria cultural. São estes agentes em missão de salvamento que resgataram Portugal profundo da tirania da estupidez e ignorância. O contínuo endeusamento de uns quantos "grandes", que consubstanciam a máxima "em terra de cegos quem tem olho é rei", é o derradeiro responsável. São esses iluminados, tocados pela magistratura do privilégio da corte de vantagem, das ligações especiais, que foram levados em ombros na luta cultural de classes levada a cabo pelas Esquerdas, ditas titulares exclusivas das artes performativas e do seu integral entendimento. No entanto, o modelo (falido, falhado) não se localiza na régua ideológica ou partidária, nada tem a ver com a Esquerda ou a Direita. É problema de fabrico. É uma patologia respeitante à matriz estatutária do país que distingue despudoradamente a superioridade cultural de uns e afasta a mediocridade avultada de outros. Confirmamos a eternização dos mesmos jogadores. São eles; políticos-poetas, escritores-aclamados, críticos-intocáveis, actores-consagrados, cantoras-diva e encenadores-inamovíveis que degeneram a possível e desejável alteração das regras, do modelo. São esses mesmos, próximos da poltrona do funcionalismo público, que não desejam grandes sacudidelas. Para eles, a cultura deve estar divorciada do mercado, porque o público nada sabe e portanto não saberia distinguir uma ópera bufa de uma simples libertação de gases. Os agentes ditos culturais não entenderam pelo menos duas coisas: a arte é sinónimo de ruptura e desequilíbrio. E os empreendimentos culturais financiam-se de um modo social, sem ser necessariamente socialista, mas intensamente escrutinado em função dos valores investidos e do retorno qualitativo e expectável das obras de arte apresentadas. Neste capítulo das artes e da cultura, da programação e dos modelos de financiamento, poucos o sabem fazer como os americanos. Ora vejam este exemplo e descubram as diferenças. Isto é apenas dinheiro dos contribuintes. Mais nada.

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publicado às 16:23

Quem nada deve, nada PS

por John Wolf, em 02.04.18

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Ana Catarina Mendes mostra-se altiva e defende os camaradas socialistas com especial nobreza e carácter - em especial aqueles que fizeram fortuna alegadamente com contactos coleccionados à pala da actividade política. A secretária-geral adjunta não concorda que se controlem os rendimentos dos políticos. O contrário de "quem nada deve nada teme" parece ser o lema orientador das suas consternações. Na entrevista, "para distrair" a malta, refere aquela bandeira de democratização, aquele preservativo para ocasiões especiais - a regionalização ou a descentralização. E acrescenta que já tem saudades de Mário Centeno num futuro governo. Mais bizarro ainda é a definição dos temas-chave para a próxima legislatura: "clima, digitalização, demografia e desigualdades." Faz lembrar tudo e nada, mas sobretudo uma certa incoerência intelectual de natureza orgânica e conceptual. Ora vejamos; o clima já fugiu a sete pés de este governo que, no meio do caos do planeamento florestal preventivo de incêndios, leva tudo pela frente, com a imposição do desbaste da mata. A digitalização parece-me uma jogada para dar razão a Sócrates e revalidar as suas teses Simplex e Magalhães. A demografia é aquela que se conhece - velha, emigrada e pouco dada à reprodução. E a expressão "desigualdades" é apenas um erro de semântica. Queriam dizer igualdade do género, mudança de sexo, cães e cadelas no restaurante, etc, etc. Ana Catarina Mendes faz bem em olhar para o futuro, mas existe um limite no que diz respeito ao que os outros devem ou não devem fazer. Sentimos, por entre estas linhas ténues de afirmações, um certo desleixo em relação aos parceiros do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português. Quem não soubesse melhor diria que o Partido Socialista já governa em maioria absoluta. Não precisa de ninguém e sabe tudo. Vamos lá controlar as contas dos barões socialistas e já falamos, está bem?

 

Créditos fotográficos: OBSERVADOR

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publicado às 17:10

Pedrógão e parafusos do Tejo

por John Wolf, em 08.03.18

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As notícias avançadas sobre o estado de degradação da ponte 25 de Abril deixam adivinhar um Pedrógão Grande do Tejo. Já começaram as sacudidelas do capote de parafusos, dinheiros e responsabilidade política. Centeno, que já se pôs a milhas da portagem, esclarece que o ministério das finanças não é uma das fissuras nem uma das roscas. Nem sequer será uma porca que precisa de ser apertada. A United Steel Corporation ainda não foi metida ao barulho (ainda vai sobrar para Trump), mas no essencial já estamos na presença de um desastre. A geringonça, que é um artefacto em si, deveria nutrir especial atenção por este caso. Por outras palavras, sem minguar o risco para vidas humanas, a haver uma paragem forçada do uso da ponte, a economia do país será intensamente afectada e o emprego de milhares de pessoas que usam esta via. Não sei se este caso tem alguma coisa a ver com a ânsia ferroviária da Catarina Martins, mas pelo baloiçar do tabuleiro, vai tudo encalhar na barra do tejo, e depois na barra dos tribunais, onde, naturalmente, nada de especial acontece. Gostava de ver o postal turístico que acompanha este excerto: "um parafuso em aço com cerca de 60 centímetros e três quilos quase ia caindo em cima de um casal de turistas e de um português que passeavam numa zona mesmo por baixo da ponte." (leiam bem: wild woman walking, no postal...)

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publicado às 17:08

Jerónimo de Sousa tem imensa piada

por John Wolf, em 04.03.18

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Jerónimo de Sousa tem imensa piada. Mas pouco mais do que isso. Tenta plagiar Catarina Martins e quase que o consegue. A bloquista rejeita dialogar com o Partido Social Democrata e o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) pega na melodia e vai ainda mais longe - apenas a Esquerda pode alterar leis laborais -, podemos depreender das suas palavras. Acho intensamente curioso que o PCP, que nunca criou uma estrutura produtiva para além da festa do Avante sem IVA, venha reiterar a superior magistratura ética e moral em relação às condições laborais dos trabalhadores portugueses. Se aquela ideologia, falida já nos tempos dos planos quinquenais, criasse empresas e postos de trabalho, talvez tivesse um pouco mais de legitimidade para reclamar e requisitar melhores condições para a classe trabalhadora. Lamentavelmente, como são inimigos viscerais do capital, nunca poderão entender como funciona a economia de um país. Os comunistas fazem lembrar os padres que oferecem conselhos sobre o matrimónio e a sexualidade, mas que nunca foram casados ou fizeram uso dos orgãos inferiores nessa condição. Os comunas, por analogia, também percebem tudo sobre empresas, mas nunca criaram alguma coisa que se assemelhasse a uma unidade produtiva. Admitamos, porém, a figura retórica, filosófica e abstracta - o timbre que define a intelectualidade. Mas nem de isso se trata. É muito baixo o nível da conversa e é apenas movida a medo - o receio de que se instale um bloco, um outro bloco - o famoso e histórico bloco central. Quando isso acontecer, Jerónimo de Sousa terá de se ocupar de outras centrais - do comité central do seu partido. E vai com muita sorte. O Miguel Tiago anda por aí. E o outro rapaz, o João Oliveira - também galâmbico -, qualquer dia faz-lhe a folha ou passa-lhe a perna.

 

Imagem: TVI - IOL

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publicado às 13:41

Galambadavos

por John Wolf, em 27.01.18

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João Galamba começa a fraquejar. O seu discurso intransponível revela agora fissuras inegáveis. No léxico do porra-voz do Partido Socialista (PS) a palavra Austeridade fora banida, mas a sua substância e o seu teor mantêm-se. Mas há algo que não bate certo. Como é possível comprar os votos dos funcionários públicos em 2019 sem aumentar os seus rendimentos? Simples - com arrogância. A ideia de que o crédito da Geringonça é ilimitado e que aconteça o que acontecer em termos de regalias ou desbenefícios, as legislativas estão no papo. Decorre desta tese um outro género de fundamentação, do tipo central - como em bloco central. Os socialistas devem pensar que têm tempo que sobeja para aliar a sibila de Rui Rio ao caderno de encargos do PS e, deste modo, tendo suficiente maioria governativa, enxotar para o canto o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda. Por outras palavras poderão passar de partido de inspiração anti-austeritário para outro que hasteia a bandeira do trabalhador-sacrificado. Esta conversa de "não aumentos na função pública em 2019" é uma tentativa de tirar o tapete ao social-democrata Rio. Se quiserem, mas sobretudo porque poderão ser forçados a fazê-lo, os socialistas poderão vir a ser ainda mais agrestes do que os seus inimigos viscerais de entranha liberal e progressista. Os socialistas da vaga legislativa de 2019 terão de ser diferentes do que aqueles que os precederam e se inauguraram em 2015. A geringonça 2.0 terá de ter um ADN substancialmente diferente daquele sacado a três a partidos. A realidade não é estática e a economia e as finanças são tramadas quando menos se espera. Não basta querer. Não basta discursar em Davos e desculpar-se do fraco domínio da língua inglesa. Venha de lá esse call-center da Google. Skiller engineers - diz o Costa.

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publicado às 10:55

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Não é preciso ser o bruxo de Fafe, nem saber a letra do hino pão, pão, paz e liberdade, para entender que o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) têm os lugares em risco na selecção da Geringonça. O actual mister dos socialistas anda de olho no avançado Rio, desfazendo-se em elogios à convocação do novo lider da oposição. Para quem sobrevive com as sobras eleitorais de legislativas e transforma derrotas em maiorias e governos, a jogada é um clássico. O esquema táctico pode passar num ápice de um 1-1-1 para um 1-1. O galanteio de António Costa pode até ser considerado uma forma de assédio ao social-democrata Rui Rio. O que o primeiro-ministro deseja, mas nem ao Rato confessa, seria que o camarada do Partido Social Democrata deixasse cair uma parte da nomenclatura dita liberal daquele partido e se convertesse à sua igreja, que fosse adoptado pelos socialistas como se de um orfão se tratasse. Por outras palavras - que se convertesse à religião da Esquerda iluminada. Mas para chegar a tal bloco de notas e realizações falta algo atípico - que Costa se comece a inclinar à Direita e a seduzir uma parte do espectro laranja. Face a estas movimentações e indícios de traição, o PCP e BE poderão sentir o enchifrar de um modo agreste e, em resultado de tal estado político-emocional descontrolado, começar a cobrar caro à Geringonça. Como o PCP e BE continuam a ser o que sempre foram e não têm nem Ruis nem Rios para vender, terão de jogar com a prata da casa. Teremos deste modo uma Catarina ainda mais teatral e um Jerónimo cada vez mais histórico. António Costa sabe que Rui Rio é muito mais intelectual e programático do que a sua persona, por isso terá de reforçar o seu jogo de cintura, apontando alguns golpes de rim aos argumentos económicos e financeiros intransponíveis que cedo irão jorrar do discurso coerente de Rio. O homem do puerto sabe muito mais da poda  do que Costa. Quanto ao traquejo político que falta, lá chegará. O estado de graça de que dispõe é superior ao tempo que remanesce à Geringonça antes que as coisas começem a meter água.

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publicado às 17:28

Ao largo do Rio

por John Wolf, em 14.01.18

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Andaram entretidos a fazer bonecos, a esquiçar desenhos, a apalpar almas gémeas onde elas nem sequer existiam e agora António Costa terá de se revisitar e rever a matriz ideológica que o sustenta, os vícios que o coligam ao Partido Socialista - chegou alguém capaz de o destronar dessa corte colada com o cuspo de uma maioria parlamentar de Esquerda. Rui Rio aí está, e embora ainda se encontre em fase experimental, em versão beta de um sistema político operativo open source, já apresentou credenciais de quem será capaz de buscar apoios e insatisfações daqueles que se iludiram total ou parcialmente com a receita da Geringonça. Existe coerência estratégica da parte do novo líder do Partido Social Democrata, que paulatinamente deixou que o inscrevessem na resistência formada à Esquerda. Rui Rio apresenta-se numa condição híbrida, trans-partidária - como se fosse independente sem descurar atributos liberais, social-democratas ou mesmo de Esquerda. É essa convivência endémica, na relação que mantém consigo mesmo, que o distinguirá das parecenças com António Costa que necessita de se abengalar aos camaradas caducos e prestar homenagem à mitologia de Mário Soares para justificar a acção governativa, como se existissem imperativos de ordem moral, pertença exclusiva da superioridade republicana e socialista. Nessa medida ideológica, devemos considerar Rui Rio como um atéu acabado de chegar, mas que partiu há muito para a mesma travessia da odisseia política de Portugal. Vai haver efeitos de sopro e ondas de choque. No seu partido e no dos outros.

 

foto: OBSERVADOR

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publicado às 14:06

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A caldeirada dos dinheiros partidários e favores políticos em Portugal deve-se a uma causa relativamente benigna - a falta de lobbies transparentes e regulados. Pensar apenas no financiamento de partidos dá azo a que se levantem suspeições e suposições em relação a tudo e todos. Mário Centeno pediu dois ingressos para ver o Benfica, mas tal facto não deve ser explorado usando a métrica do tráfico de influências. Não chega a tanto. Porém, o Presidente do Eurogrupo foi tonto ao servir-se do argumento securitário, pondo em cheque o protocolo regular instituído para figuras de Estado. Adiante, o jogo da bola não tem a ver com a discussão que urge. Há anos que os políticos de todos os quadrantes se servem de ligações especiais e concessões de bastidores. E é isso que deve ser corrigido, criando uma modalidade regulamentar que contemple todos os modos de transferência de meios, financeiros ou de outra natureza. Se o financiamento de forças políticas constar de um mapa obrigatório e de acesso online deixa de haver zonas cinzentas. Os Estados Unidos oferece péssimos exemplos em muita coisa, mas as regras são claras quanto à subvenção de agendas políticas - sabe-se de onde vêm os dinheiros. O que deve ser tido em conta em Portugal é a privatização do financiamento dos partidos. Não faz sentido que os contribuintes paguem a dobrar a acção política. Já basta que paguem os salários parlamentares, do executivo ou do presidente da república. Se o mercado político for privatizado e transparente, o dinheiro fluirá para onde houver mais credibilidade. A ideologia partidária teria, deste modo, de se fazer valer pelas ideias, que nutririam mais ou menos apoio financeiro de acordo com a sua consistência. Os lobbies, organizados em torno de causas, serviriam para disciplinar o caos e banir a prevaricação que ocorre na paisagem política nacional. Mas mais importante do que estas questões administrativas, seria estabelecer a correlação entre o financiamento de partidos e o avançar das causas meritórias que o país exige. O financiamento partidário, nos actuais moldes, parece desenvolver-se numa economia paralela, no sub-mundo da política. Não é líquido que do financiamento partidário resultem melhores soluções políticas para o país. E os portugueses gostariam de ver tudo à tona, à luz do dia e do seu juízo.

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publicado às 10:51

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A cavalo dado não se olha o dente? Olhe que não. Eu teria algum cuidado se fosse um dos recipientes das indemnizações decorrentes da tragédia dos incêndios. As vítimas e familiares das vítimas de Pedrógão  esfregam as mãos de contente por receberem o cheque assinado por Centeno, mas cautela. Como em qualquer apólice de seguro, é importante ler a letra miudinha. Aqui têm a cláusula que diz tudo: "António Costa explicou que o direito de regresso será exercido "se vierem a ser identificadas responsabilidades que possam levar o Estado a exigir o direito de regresso destas indemnizações que adianta." Por outras palavras, os beneficiários recebem o cheque, mas caso se alterem as condições que sustentam a substância e a forma da responsabilidade do Estado, toca a devolver o dinheiro. Podemos então concluir que se trata de um empréstimo político, adequado à época pré-legislativa de campanha. Aposto que apenas pegam no estorno e transtorno da questão se o Partido Socialista (PS) ganhar as eleições de 2019. Até lá a responsabilidade será sempre do Estado, porque convém. Ou seja, seria um tiro no pé enviar o cobrador do fraque ir recolher o dinheiro malparado antes do tempo, durante a legislatura. Se o PS não for tido em conta num novo governo, lá para 2019, então será perfeito - a batata quente passa para outros que farão o favor de ser os maus da fita. Não julguem por um instante que quem vos governa não pensa deste modo. É assim mesmo que funciona. Política é um jogo de atrasos e antecipações, empréstimos e devoluções.

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publicado às 17:34

A falência técnica do PS

por John Wolf, em 03.01.18

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Sempre apreciei sátiras, mas sou mais fã de ironias do destino. Para esta rábula sirvo-me do falido Partido Socialista (PS), porque este assume-se como lider da pandilha, mas a ilustração pode servir de template para qualquer partido político. Pensavam eles que enquanto o português enchia o bucho com rabanadas faziam passar a Lei do Financiamento dos Partidos. Nada de mais errado. Venham de lá mais hérnias para endireitar as costas dos políticos. Bravo Marcelo. Mas adiante. Vamos ao Largo do Rato. Face à falência do PS, vejo alguns caminhos de salvação. Começemos pela austeridade doméstica; o corte nas despesas e mordomias dos dirigentes socialistas; o acesso a empréstimos bancários mediante a concessão de garantias imobiliárias; a angariação de receitas próprias, designadamente a transformação da sede do Rato em alojamento local com direito a tour político e a oferta de um brinde de campanha. Enfim, é absolutamente deplorável que os partidos estejam nesta situação. Para todos os efeitos, a Geringonça é como uma Troika, e eu esperava mais solidariedade e racionalidade na gestão de meios. O Partido Comunista Português, o grande capitalista imobiliário do panorama partidário, poderia, se fosse mesmo marxista, ceder um edifício ao PS ou conceder um empréstimo com juros bonificados aos seus camaradas de governação. Pensava eu que o Mário Centeno poderia ser um belo patrão das contas internas do PS, mas arranjaram mesmo um Patrão, um tal de Luís Patrão. Tecnicamente falido - dizem eles - uma expressão simpática. Faz lembrar a técnica da força ou a força da técnica. Não interessa. Estão falidos. Venha de lá uma execução fiscal, o arresto de bens, o congelamento de contas - aquilo a que está sujeito o zé ninguém, o cidadão anónimo, filiado na ilusão do fim da Austeridade, a fraude vendida por essa mesma casa arruinada. Marcelo devia aproveitar a deixa e propor a elaboração de uma Lei da Falência Técnica dos Partidos. Chega de perdões. Para magoar, tem de doer a todos. A ironia do destino é a Austeridade que o PS vai ter de administrar a si mesmo. Talvez seja boa ideia pedirem ajuda ao Passos Coelho, que sabe como se faz.

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publicado às 11:05

2018 e o lápis azul da Geringonça

por John Wolf, em 01.01.18

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A geringonça decididamente não é a outra senhora; o governo já não tem uma PIDE. Mas eles andam aí, reencarnados, dotados de um sentido, de uma missão - afastar qualquer forma de informação conducente a protesto político. Subrepticiamente, mas efectivamente, o governo tenta colocar em lugares-chave agentes de controlo da comunicação. Não lhes convém que se levantem ondas. A nomeação de Nicolau Santos para presidente do conselho de administração da Lusa faz parte da narrativa que sugiro. A agência noticiosa deveria ser regida por critérios de pureza, de idoneidade e imparcialidade. O director-adjunto do Expresso entra mesmo a tempo (na Lusa) e antes da nomeação de um novo lider do Partido Social Democrata (PSD). O simples facto dos nomes de João Soares e Gabriela Canavilhas terem sido referidos para o cargo em questão confirma algum nervosismo da agência de comunicação do governo. Parece que irão precisar de reforços para aguentar a verdade incontornável dos dados de governação e a liderança do PSD. Este ano será particularmente interessante com o Banco Central Europeu a reduzir o apoio financeiro a países como Portugal. Aliás, não faria sentido outra coisa. Se o sucesso desmesurado da economia e finanças de Portugal é inegável, não vejo razões para que continue a ser subvencionado. Mas eu não me quero afastar do tema central de este post - a censura. Ainda ontem, sem nunca imaginar que tal pudesse acontecer, fui bombardeado com insultos e ofensas por ter atribuído o prémio Flop do Ano às ciclovias da Câmara Municipal de Lisboa. A um ritmo feroz e intensamente ideológico foram chovendo comentários intensamente pendulares, totalmente inclinados para a excelsa governação de Fernando Medina. A maior parte dos comentadores apresentava-se na qualidade de anónimo ou desconhecido, mas era mais que óbvio que trabalhavam para a agência noticiosa da autarquia. O que me valeu foi o lápis azul. A dada altura, face à torrente medíocre de insultos e palavrões, decidimos que grande parte dos comentários não seria aprovado. Recordo aqueles mais distraídos - a internet não é uma democracia. Assim sendo, neste primeiro dia do ano, faço a seguinte promessa. Não nos vergaremos perante tentativas de condicionamento ou coacção seja qual for a casa política ou partidária que os instigue ou os consubstancie. Se querem esgrimir-se de razões, façam-no com a inteligência da argumentação e a volúpia da forma literária. Melhor ainda, dêem a cara, criem um blog (ainda recebem algum do governo) e assinem os artigos de opinião. Não vale a pena ficarem nervosos por causa de umas pedaleiras.

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publicado às 18:40

A grande oportunidade de Marcelo

por John Wolf, em 27.12.17

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Marcelo Rebelo de Sousa, mais do que o Presidente da República com quem temos convivido, tem a oportunidade de ser efectivamente o Presidente de todos os portugueses. Se vetar a Lei do Financiamento de Partidos, e abrir a necessidade de um debate profundo sobre as implicações da mesma, estará a servir a República. Não estará a servir o sistema político nem a matriz partidária do país. Colocar-se-á ao lado de um princípio que deve imperar em Democracias - o princípio da igualdade de tratamento. Iria mais longe até nas consequências a extrair do grande tema do financiamento dos partidos políticos. Não pensar apenas na dimensão do haver - pensar obrigatoriamente na lógica do dever - do dever moral, ético, mas acima de tudo fiscal. Instituiria uma taxa partidária a que estariam obrigadas todas as filiações no sentido de financiar a ideia genérica de participação activa política de cidadãos independentes que em nome da cidadania e da sociedade civil procuram servir o país. Não vejo por que razão o tratamento positivo e discriminatório há-de ser a norma. Marcelo Rebelo de Sousa poderia equilibrar os pratos da balança do seu porte presidencial. O veto elevaria a consideração de tantos portugueses em relação à missão presidencial. Marcelo apenas tem dado a conhecer o mel dos abraços e da solidariedade. Agora falta-nos provar o fel do incómodo que causaria a toda uma classe política versada no parasitarismo, na promiscuidade e no esbanjamento de dinheiros públicos. Simples, Marcelo. É rasurar a proposta de Lei e devolvê-la ao remetente para nova redacção contemplando uma genuína revolução do financiamento partidário. Esta é a grande oportunidade de Marcelo.

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publicado às 14:05

Cartolas à medida, à Medina

por John Wolf, em 26.12.17

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Não se pode celebrar um Natal descansado. Não se pode virar as costas aos políticos. Não se pode confiar. Fernando Medina já fez a encomenda - 60 mil cartolas para festejar a passagem de ano. Pelo que percebi são três lotes de cartolas. Um para cada um dos parceiros da Geringonça. Um de cor vermelha PCP, outro de cor preta BE, e outra remessa, tipo brilhante PS, para a sua gente.  Não nos esqueçamos por um instante que o marketing político é uma arte subtil, dissimulada. Não é preciso ler tratados sobre religiões e símbolos políticos, mas existe muita tese sobre o tema. Aconselho Voegelin, o autor que versa sobre as implicações e as raizes do sagrado político. Mas são sobretudo regimes de massas que fazem uso de brindes e enfeites. O socialismo-nacional não foge à regra. O Padeiro Português pode fazer o que bem entender aos bolos-rei, mas o dinheiro dos contribuintes não pode servir para este banquete de gorros e barretes. Como tudo na vida pública e autárquica, seria imprescindível fazer um rastreio para apurar quem ganhou o concurso de fornecimento de boinas e de que modo foi adjudicada a empreitada. Julga o presidente-camarada de Lisboa que por ser dia de bebedeira a coisa passa sem se dar conta? Não. Isto é particularmente escandaloso. Mas há mais. Sabemos que a Lena d´Água está a passar mal e que já passou de moda, mas alguém puxou cordelinhos e cabos de amplificação para a pôr a mexer no palco das 12 passas a 31 de Dezembro. De nada servem Raríssimas, códigos de ética e tretas pseudo-moralistas. Não faz diferença alguma. As badaladas são as mesmas. São cartolas à medida de Medina.

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publicado às 15:16






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