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A indústria das remodelações falhadas

por João Pinto Bastos, em 30.12.13

Hoje, realizou-se a nona alteração à composição do executivo, sendo que, no presente ano, esta é a sétima remodelação efectuada. Em suma, no espaço de um ano este Governo já sofreu sete alterações na sua composição, sendo que em quase todas elas não houve, a bem da verdade, um único ganho político digno de nota, exceptuando a tão contestada remodelação de Julho. De resto, quase todas as remodelações realizadas até ao momento trouxeram, na generalidade, inexperiência política a rodos, e embaraços escusados, pelo que, céptico como sou, não dou grande crédito a esta remodelação.

publicado às 19:02

A tabela classificativa da governação

por John Wolf, em 02.07.13

Os intérpretes da nação, os jornalistas e comentadores estão concentrados na tabela classificativa. Se Paulo Portas subiu do terceiro posto para o segundo. Se Maria Luís Albuquerque, que jogava na divisão das secretarias de Estado, tem legimitidade e competência para disputar a primeira liga. E andamos nisto. De Constança Cunha e Sá a Peres Metelo, estão todos preocupados com os aspectos formais, obviando o mais importante, a matéria substantiva que define a crise política, económica e social. Discutem se os actores tinham conhecimento prévio ou não dos Swaps. Se fulano e sicrano tinham falado sobre esta ou aquela operação, sob os auspícios de Sócrates ou sob a batuta de Passos Coelho. E depois temos  Seguro, que pediu uma audiência para fazer queixinhas ao presidente da República. Um militante, o outro dilitante. Estas picardias, estas miudezas são exactamente o oposto do que se exige. A nomeação de Maria Luis Albuquerque faz parte de uma lógica de governação perdida, de um método que enuncia que já não há nada a ganhar. O dedo já está na ferida há muito tempo, e do ponto de vista da governação, é carregar no acelerador até ao estoiro final. Mas imaginemos um cenário utópico de brandura e simpatia. Aquilo que Seguro anda a apregoar na missa. A nomeação de um embaixador das balelas socialistas. A ilusão que é possível crescer sem reformar. A ideia que o Estado pode continuar a ser obeso e que o contribuinte pode ser poupado. Infelizmente, já não há volta a dar. Seguro, se subir no ranking, por demérito dos outros, pode até ter a ficha limpa, mas no primeiro dia de trabalho contradizer-se-á ao pretender desfazer o que os outros fizeram. Será confrontado com o mesmo dilema que triturou Gaspar e que irá moer Albuquerque. Que não restem dúvidas. Nada se altera com a entrada de uns e a saída de outros. O pelotão que comanda os destinos da nação é igual ao país; está metido em sarilhos. No entanto, observo que uns sabem escapar às labaredas com mais arte do que outros. Paulo Portas tem sido hábil na gestão da cozinha governamental. Destaca-se enquanto provador das receitas, distancia-se do chef quando há conflito no que diz respeito aos ingredientes, mas nunca diz que gostaria de ter o seu próprio restaurante. No remendar do pano roto oferece a linha e a agulha, mas ainda não tem uma manta suficientemente ampla para granjear o aplauso de todo o espectro político - uma maioria governativa. O PSD e o PS estão a abrir alas para algo distinto. O primeiro por exagero na função e o segundo por inexistência. Se eu fizesse parte desta matilha e fosse estratega, começava a procurar salvar o coiro. Gaspar não se demitiu. Gaspar rendeu-se às evidências de algo que transcende o rancho político nacional. A falta de coesão de que se queixava também se aplica à Europa no seu todo. No "todo" da União Política e na parte respeitante à moeda. A profissão de ministro das finanças há muito que tem vindo a ser posta em causa pela eminência cada vez menos parda dos banqueiros centrais. São esses presidentes de banco "that are calling the shots". Não me admiraria muito, se, no contexto da arquitectura económica e financeira da União Europeia, os ministros das finanças da periferia vierem a ser dispensados, subsituídos por outro género de colaborador. Se Maria Luís Albuquerque aguentar ainda mais pressão do que Gaspar, então a decisão tomada pela Alemanha foi acertada. Wolfi acaba de ver inscrita na sua escola uma aluna mais fraquita. E os mais fracos querem sempre agradar aos professores. Querem fazer-lhes as vontades, porque as ideias que têm não chegam a sê-las. As futuras nomeações políticas que venham a acontecer irão também obedecer a esse princípio de olho de furacão. Encontra-se o candidato já intensamente calejado por swaps ou coisa que o valha e desse modo as expectativas morrem à partida. Apenas tenho uma coisa a dizer: o nível é tão baixo que nem aparece na tabela de classificação. Aparece noutra escala.

publicado às 10:38

Marcelo e a decoração governamental

por John Wolf, em 14.01.13

Marcelo Rebelo de Sousa não engana. É um comunicador por excelência e um razoável nadador. Semanalmente lê centenas de livros na diagonal. Corrigo-me, na vertical. Para além dessas recensões televisivas, comenta qualquer matéria que se lhe apresente. É um take-away da televisão. Chega ao balcão e dispõe as afirmações que alguém há de engolir, tal o entusiasmo do vendedor. Para além disso, não conheço tema que tenha rejeitado por se sentir incapacitado. É membro do conselho de Estado e funciona como preparador de atletas políticos caídos em desuso, mas que no seu entender devem regressar às equipas principais com uma nova posição em campo, um novo entusiasmo. No fundo, o Marcelo é como um olheiro que fala ao mesmo tempo. Quando disse que era conselheiro de Estado esqueci-me de acrescentar que também é conselheiro de Governo. Contudo, após largos anos de apreciação da realidade política e alegadamente da matriz cultural do país, acaba por cometer erros e repetí-los com a mesma naturalidade. A haver uma remodelação governamental, porque razão os Portugueses desejariam aqueles velhos conhecidos que nada acrescentam às funções que se lhes possam atribuir. Marques Mendes não está interessado, e porque razão Morais Sarmento é o homem certo? As opções sao escassas - afirma Marcelo. São escassas porquê?  Não se encontram na sociedade civil indivíduos com sentido de Estado, com competência e independência? Não entendo esta insistência na consanguinidade política, na aplicação da máxima que parece algo mínimo - a prata da casa que nem sempre serve. A situação parece ser tão dramática por terem de recorrer a jogadores, que embora não tinha sido suspensos por actividade danosa, nada podem oferecer para alterar seja o que fôr. Se é isto que Marcelo Rebelo de Sousa apresenta como melhor proposta, aqui há gato. À primeira vista poderia dar ares de uma remodelação certeira, consensual dentro e fora do partido, por serem dois meninos políticos inofensivos. Mas não acredito. Julgo que esta ideia sem sal não acontece de um modo ingénuo. Como se o Marcelo estivesse distraído a olhar para o relógio ou a rabiscar uma nota televisiva. Podemos interpretar isto de outro modo. Ao se substituir uma peça deficiente por outra inútil, o jogo prossegue no mesmo tabuleiro e chega-se ao mesmo destino de descalabro como se nada fosse. Se um génio fosse integrado no plantel iria começar a ter as suas próprias ideias e isso seria um perigo para o governo de Passos Coelho. A remodelação leva em conta um certo perfil. Tem de ser um bicho mansinho, um político perfeitamente domesticado que não morda a mão do dono.

publicado às 12:14






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