Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Se votasse cá, seria no António José Seguro. Passo a explicar em resumidas palavras. Mas vamos por partes. Depois de dois mandatos histeriónicos, em versão benigna de populismo, multiplicados pelo dom da ubiquidade do gelado na testa e da feira do livro, os portugueses estão saudosistas da serenidade e do recato, da temperança e da discrição. Os portugueses estão de ressaca. Não se trata de casas ideológicas ou causas partidárias. Quando olho para Seguro vejo o Partido Socialista (PS). Vejo o PS de António Costa, e o próprio, a dar umas valentes bofetadas a Seguro — muito feio, foi muito feio, mas adiante. Assim de repente, muito oportunamente, os socialistas que votaram ao abandono Seguro, agora festejam a sua proposta presidencial, irrecusável. O candidato Seguro, que já não lhes pertence, tem um vote appeal maior do que o Largo do Rato. Pela leitura que faço e pela evidência das palavras proferidas por Seguro, o seu perfil preenche os requisitos de Belém. Será capaz de se abster de cair no limbo da amizade governamental, para ser apreciado pelo camarada acidental. Será suficientemente hábil para não puxar da selfie fácil para gaudio próprio e devoção epidermal dos portugueses. Será astuto para saber quando oferecer uma palavra ou subtrair outra. Mas mais importante do que tudo isto — apresenta-se com um grau de descontaminação político mais que bastante. Não corre o perigo de dar à luz conflitos gémeos de interesses, ao contrário de Marques Mendes que até pode desconectar-se da Abreu $ Associados, mas não se livra de um extenso caderno de encargos, inúmeros dossiês e décadas de argolas. E há mais. O tom paternalista de Marques Mendes não serve para nada. Ele bem que tentou emular a receita pré-presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa aquecendo claramente a cadeira de comentador televisivo, mas essa fórmula só funciona com o original. A malta não vai em conversa de Temu ou Aliexpress. O maverick presidencial tem de ser autêntico, inigualável. Muitos acharam que o Marques Mendes deu uma tareia no Cotrim ao vivo e a dores, mas não. Marques Mendes foi autofágico — demonstrou que rasteja na lama das tricas, que desce aos pântanos onde grassam as larvas e as miudezas dos tira-teimas. Agora imaginem o que seria se eu votasse em Portugal?
Pediram um post sobre férias e descanso? Ora aqui têm. Se quiserem podem me chamar de: "o Grinch que roubou as férias". Estamos na recta final de Agosto. Lançam-se os últimos foguetes. É uma loucura, mas depois acaba tudo abruptamente. Por daqui a alguns dias teremos a operação "retorno seguro"- uma festa organizada pela brigada de trânsito para acalmar os ânimos na estrada. E eis que chegam a casa os milhares de portugueses que gozaram uns belos dias de descanso. Ao abrirem a caixa de correio lá estará a 2ª prestação do IMI por pagar, a quota devida para a inscrição na escola dos meninos, e, como se não bastasse, a revisão da viatura que ficou adiada para depois das férias, saiu bem mais cara do que o esperado: a luz de aviso que acendeu no painel de instrumentos (e que foi ignorada vezes sem conta), afinal tinha razão de ser. A bomba de água do motor berrou e lá vão mais uns 200 euros para reparar a coisa. E todos sabemos, quando elas acontecem, geralmente são umas a seguir às outras. O vizinho de cima esqueceu-se de fechar uma torneira e o tecto da cozinha está uma lástima - caiu estuque e tudo. Que chatice, e ainda por cima, à má-fila salgada, diz que não tem culpa e que não paga pelos danos causados. Que desgraça. Mal tiveram tempo para arrumar a toalha e a tralha, e bate à porta o carteiro com uma notificação da Autoridade Tributária que foi aos arquivos e encontrou uma prestação de 2007 que lhe havia escapado ao controlo - com juros acrescidos, claro está. Era a última coisa que precisavam, mas não acaba aqui. O menino, que apanhou um escaldão de primeira, parece ter uma espécie de alergia, um prurido. É melhor levar o Martim ao médico, e, sem querer, dizem que vão ser necessários mais uns exames. Contas feitas: 235 euros no privado. No centro de saúde, sim senhor, mas apenas com marcação para meados de Novembro. Depois temos mais uns impostos e taxas todas sexy que aí vêm. Uma coisa relacionada com direitos de autor ou actor, ainda não sei bem. Mais uns cortes no salário, e a reserva estratégica detida no depósito a prazo foi-se. A família que gozou as férias nunca pensou ter de tocar nos cinco mil euros de conforto que guardou para dias menos solarengos. E afinal andava tudo equivocado. Os dias menos solarengos são estes, como as semanas escuras que se seguem. Parece um pesadelo. Mas é algo bem pior. É como acordar de um sonho de uma noite de verão e viver um pesadelo. Infelizmente, é este o filme em que participará um país inteiro. A ressaca vai ser dura - sol de pouca dura.
Embora haja muito boa gente que queira fazer a apologia do lindo Agosto, afastando as nuvens da meteorologia e das camas vazias de hotel, a verdade é que a ressaca da inconsciência far-se-á sentir, já se faz sentir. O turismo, condecorado como uma vaca sagrada, tratado como o antídoto para os males económicos, pelos vistos não foi suficiente para alterar a percepção que o mercado tem da economia nacional. Foi tudo de férias sem excepção - governantes e desgovernados -, o tempo quente e a toalha de praia, uma maravilha para fazer esquecer a descida, a ida ao tapete. A taxa de ocupação dos aparthóteis algarvios a rebentar com a escala. Os incêndios? Isso é lá para o norte, tudo tranquilo aqui com a mini - lê-se no Correio da Manhã debaixo da sombrinha do Continente na cadeira de campanha que a Maria trouxe às costas do carro mal estacionado no lugar do ausente, deficiente. Deixe lá que a GNR não tem combustível para o Rover que está à porta da farmácia já faz dois meses. Na caixa do correio por daqui a alguns dias os picotados das notificações; IMI, Esgotos e Saneamento Básico, e depois, à falta de memória, o IUC. Sem esquecer a inscrição dos miúdos na escola e o raio daquele seguro obrigatório para o carro e a casa. As férias? Vou tê-las a bem ou a mal. O direito ao descanso está consagrado na Constituição. Se está escrito é porque é verdade.