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Águas turvas

por Nuno Castelo-Branco, em 28.03.15

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Nada surpreendente, esta súbita sincope diante da menina Mortágua, herdeira de excelsos pergaminhos consuetudinários, aqueles famosos folga e gaba-te que dão sustento a qualquer febre revolucionária, por muito duvidosa que esta a muitos possa parecer.

A direita portuguesa é sumamente tímida. Chamo-lhe tímida para não exagerar no desagradável. Ainda recordo um dia de eleições, por sinal o primeiro em que votei no já muito longínquo ano de 1979. Uma trapalhada qualquer nos cadernos eleitorais, implicando más contas e erros no descarregar dos mesmos, tinha ocasionado um momentâneo desnorte dos representantes dos partidos presentes naquela mesa estabelecida na reitoria de Lisboa. Garoto subalterno nos angariados pela AD, fui vendo a papelada e o caso foi prontamente resolvido. No fim do dia, contados os votos que não causaram surpresa à coligação vencedora, logo o chefe CDS, quiçá envergonhado pelo incómodo que as urnas causaram aos iracundos detentores da superioridade moral, prodigalizou as inevitáveis fosquinhas no lombo do senhor da FEPU - a então Frente Eleitoral Povo Unido, mãezinha daquela que seria a APU e avó da actual CDU de curiosas ressonâncias germânicas -, afiançando-lhe ..."aaaaaaaah, a vossa juventude é formidável, se a menina fulana de tal não tivesse estado atenta, ainda não era hoje que daqui sairíamos!" Como seria de esperar, a menina fulana de tal, era a filha do comissário enviado pelo Hotel Vitória. Imitando o progenitor, a espantada pioneira encafifou-se num sorrisinho envergonhado e aceitou a burguesa lisonja que de mim apenas mereceu o mais sonoro e ríspido comentário possível:

- Vocês não têm vergonha na cara.

Não têm, nunca a tiveram. Os familiares FEPU e o tremelicado CDS ouviram e não responderam, remetendo-se ao silêncio apenas interrompido pelo restolho da arrumação dos papéis. Bem sabiam que estes jogos de sombras, são coisa comum a todo o espectro político que saltita por aí em quermesse sem rifa ideológica de espécie alguma. À saída, nervosamente revirando a ponta do bigode, o senhor do CDS foi-se desculpando com o expectável ..."tenta compreender, não sejas assim, temos de ser uns para os outros". Fomos, de facto, uns para os outros. Nem sequer lhe respondi e a partir daquele momento, ignorámo-nos. 

Isto serve para ilustrar o que se tem lido e escutado por toda a imprensa, enaltecendo  os insípidos ditos jocosos da filial Mortágua parlamentar. Não parece ser muito difícil o tal exercício de aperto dos inquiridos, sabendo-se da buena dicha que todas estas questões, prodigamente servidas e requentadas ao longo de décadas, oferecem ao linguarejar de comissões parlamentares, escritos e mexericos jornalísticos e parlapatice televisiva. A Mortágua acha-se engraçada e logo a Meireles entra no mata e esfola, numa compita em que a deputada da direita surge em desvantagem, dado o pendor paternalista que acaricia sempre a área sua oponente. Ninharias alçadas a golpes de génio oratório, tornam-se num espectáculo que apenas nos certifica da miséria que grassa nos meios beneditinos. Qualquer arrufo, guincho ou piadinha que miraculosamente não envolva bola, chuteiras ou baliza, é coisa admirável, digno de memória futura. 

Voltando ao assunto que interessa, o caso BES, apontado assalto interno a uma instituição que foi, gostemos ou não da evidência, o sustento de boa parte dos comensais do regime, fez diluir a fronteira entre o público e o estritamente privado, tornando-se num emaranhado de teias de interesses e de jogos de oportunidade de difícil destrinça. Assim, subitamente surgem irmanados na desgraça, uns valentes jogatões nos azares da plutocracia e uma imensidão de modestos acumuladores de magros pés de meia, todos  eles confiantes de antemão, na costumeira garantia que o tesouro público tem significado neste tipo de aventuras. Quando ainda por cima surge a manifestação de total confiança proclamada - mas agora garantida como não dita - pela cabeça máxima da república, dir-se-ia estarmos numa espécie de nirvana securitário que encorajava toda e qualquer oportuna golpada possível de capitalizar. Apesar de todo o imbricado político-empresarial-financeiro em que caboucava a mais louca esperança de solidez, o BES era formalmente uma curnocópia privada que ninguém via como pertencendo à comunidade nacional, nãos e tratava de uma réplica do BdP. À boa maneira portuguesa, era o privado de todos, um Estado dentro e fora do Estado. Se os indícios se tornaram há muito tempo demasiadamente visíveis, muitos fingiam nada lobrigar, esperançados no sempiterno desenrasca nacional e no proverbial logo se vê! em manhã de nevoeiro.  Um ínfimo exemplo? Quem passeasse pelas ruas de Lisboa e deparasse com cartazes Obra a obra, Lisboa melhora, terá alguma vez reparado nas instituições promotoras da demolição do que lá estava antes e daquilo que depois ali se ergueu, bastas vezes a expensas do património arquitectónico e do sempre discutível bom ou mau gosto, quando não da simples decência nos processos. Dir-se-ia que o tal solidíssimo grupo, era bafejado por demasiada sorte nos desafios urbanos. Dava cartas saídas da manga do urbanismo. 

A queda do BES não causou estranheza alguma, talvez fatalmente ditada pelo fim dos cartapácios onde outrora se amontoavam papéis de títulos e poupanças aprazadas, resenhas de contas, saldos, teres e haveres, garantias e restante panóplia burocrática facilmente vítima de fortuitos autos da fé. Vazias as estantes dos dossiers de outros tempos, vivemos no tempo da circulação pelo éter, seja lá o que isso signifique para o nosso bem e tranquilidade futura.

Dir-se-ia ser a Dona Mortágua, a natural porta-voz connaisseuse destes milandos e timacas parlamentar-banqueiros, pois tem ADN privilegiado.

Facilmente perceberão porquê.  Como diria o Soares, "riã de spêciál".  

publicado às 19:28

Estaline em S. Bento

por Nuno Castelo-Branco, em 03.10.14

 

O PC e o BE não viram as obras e reagiram antes do tempo. O artista pregou uma partida ao departamento cultural de S. Bento e em vez de Carmona, apresentou um busto do seu contemporâneo José Estaline. Fica então reposto o equilíbrio.

publicado às 08:36

Deputados

por Nuno Castelo-Branco, em 16.09.14

 

Não se entende toda esta resistência a uma necessária redução no número de deputados em S. Bento. Apenas para uma breve comparação com alguns países de dimensão idêntica à portuguesa - embora mais prósperos -, aqui ficam os números:

Reino dos Países Baixos, 16.856.000 habitantes, 150 deputados no Parlamento

 

Reino da Bélgica, 11.200.000 habitantes, 150 deputados no Parlamento

 

República da Áustria, 8.400.000 habitantes, 183 deputados no Parlamento

 

República da Hungria, 9.879.000 habitantes, 199 deputados no Parlamento

 

Reino da Dinamarca, 5.700.000 habitantes, 179 deputados no Parlamento

 

República da Irlanda,  6.400.000 habitantes  186 deputados no Parlamento

 

Reino da Noruega, 5.136.000 habitantes, 169 deputados no Parlamento

 

Em conclusão, os beneditinos "resistentes" ficam na desagradável posição de reconhecerem a "necessidade de mais gente para fazer o mesmo trabalho que os outros fazem" com menos cérebros disponíveis. Claro que isto é populismo, algo muito diferente de caciquismo, tachismo, jotinhismo, etc. Aguarda-se então mais uma avalanche de justificações esfarrapadas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:00

Palácio Tauride, Lisboa, 1975, 2013

por Nuno Castelo-Branco, em 12.07.13

 

Em pouco mais de meia dúzia de parágrafos, Henrique Monteiro diz o essencial. Não sei como é que o sr. Balsemão ainda o aguenta. 

 

O que ontem se passou no Parlamento, obedece a uma conhecida manobra de agit-prop, parida logo após a revolução que em 1917 depôs o Czar Nicolau II. No Palácio Tauride reunia-se a Constituinte e o minoritário partido de Lenine organizava rotineiras algazarras que pretendiam intimidar os "deputados burgueses". Insultos, berreiro sem fim, ameaças de morte eram a rotina nas sessões parlamentares. Mais tarde, o mesmo se passaria nas Cortes de Madrid, chegando-se ao ponto da Pasionaria ameaçar com a morte - e tal aconteceu - o deputado Calvo Sotelo. 

 

Em Portugal seguiu-se o guião à risca e durante os trabalhos da Constituinte, a gente do PC organizou o cerco e sequestro dos outros deputados eleitos. Sem poderem sair de S. Bento, exaustos, fisicamente ameaçados e sem comida, tencionava o PC amedrontá-los e na melhor das hipóteses, conseguir politicamente algo mais que aquela ninharia dos 12% saídos das urnas. Refastelavam-se os deputados organizadores do regabofe trauliteiro, rebolando-se de gozo com os ameaçadores urros que vinham do largo fronteiro ao Parlamento. Aproveitando o dislate, escandalosamente se empanturravam com todo o género de vitualhas diante dos já esfomeados eleitos do PS, PPD, CDS e ADIM. A baixeza chegou a este ponto.

 

Ontem, a sra. Esteves - pelos vistos, finalmente  começou a ganhar alguma prática na condução dos trabalhos - fez precisamente aquilo que dela se espera e que o regimento obriga. Liquidou o dislate da melhor maneira e citou a Beauvoir, precisamente uma "pássara" que durante o PREC aqui desembarcou a pregar algo de bastante sinistro e que nas ruas mais tarde se traduziria, entre outras prepotências, no citado sequestro da Constituinte.

 

Qual será o motivo do escândalo que agora corre na imprensa? Parece que se deve ao alvo da citação da colega de quarto de Sartre, pois dirigia-se aos nacional-socialistas. Onde está então o problema, se esses mesmos nacional-socialistas foram aliados dos camaradas soviéticos e nos persuasivos métodos de intimidação prodigamente os copiaram? Procurem bem nos números do Avante! de 1939-41, pois lá estão todas as respostas. Isto, se algumas mãos caridosas não tiverem definitivamente incinerado aqueles preciosos papiros de outros tempos. 

 

Foi uma marginal bancada quem moralmente organizou o ultraje de ontem. Querem a prova? Simples: à porta do Parlamento estava a sra. Avoila, acompanhada pelo sempre-em-pé  "professor" Nogueira. 

publicado às 16:04

Exemplar

por Samuel de Paiva Pires, em 15.11.12

A actuação da polícia ontem em S. Bento. Os direitos à greve e à manifestação não conferem qualquer direito à violência. Aquilo a que se assistiu ontem - um grupo de marginais que durante cerca de hora e meia apedrejou a polícia - é simplesmente inadmissível num Estado de Direito. E se é verdade que a carga policial atingiu pessoas que ali se manifestavam, não fazendo parte do grupo de marginais, também é verdade que a a polícia avisou, como é legalmente exigido, que iria proceder à dita carga e que, como tal, deveriam retirar-se da praça. O que estas pessoas deveriam ter feito imediatamente, tal como o Daniel Oliveira e outros dirigentes da CGTP e PCP fizeram ainda antes dos avisos, era abandonar o local. Não o fizeram, sujeitaram-se a ser alvo de bastonadas. Como escreve Henrique Monteiro, «Bateram em pessoas que jamais tinham atirado uma pedra? É possível. O que não é possível é ser de outra maneira;o que não é possível é durante uma carga, um polícia que esteve sob uma tensão enorme durante horas, indagar e interrogar-se sobre a justeza da sua ação. Isso é lírico.» Ademais, como escreve o Carlos Guimarães Pinto, «E, segundo, se não será apropriado concluir que as restantes pessoas que se mantiveram na manifestação muito tempo depois do tiro ao polícia ter começado estavam ou não a validar com a sua presença as acções daqueles indivíduos.»


Há ainda quem diga que a polícia deveria apenas ter investido e detido o grupo de arruaceiros que procedia ao apedrejamento. Se assim tivesse sido, a polícia colocar-se-ia numa situação complicada, podendo ser rodeada pelos restantes manifestantes, o que inclusive poderia originar ainda mais violência que aquilo a que se assistiu.


Por outro lado, ao contrário do Daniel Oliveira, não creio que a acção da polícia após a dispersão da praça em frente ao Parlamento possa ser considerada abusiva. Não há imagens do que se terá passado entre S. Bento e o Cais do Sodré, mas daquilo que as televisões captaram nas ruas adjacentes ao Parlamento nos momentos que se seguiram à dispersão e entre Santos e o Cais de Sodré posteriormente à confusão, os arruaceiros fugiram por várias ruas vandalizando estabelecimentos comerciais à sua passagem e ateando vários incêndios. É pena que não tenham sido detidos antes de o fazerem.

 

Para finalizar, tendo ainda em consideração o crescendo de violência que tem perpassado as manifestações das últimas semanas, a polícia não tinha alternativa a dar um sinal claro de que há certos limites que não podem ser ultrapassados. E a reacção da generalidade dos portugueses ao sucedido, excepção feita à extrema-esquerda - como seria de esperar -, aí está para provar que a polícia agiu como era esperado e se impunha.

 

publicado às 14:05






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