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Síndrome de imuno-deficiência bancária

por John Wolf, em 19.08.14

Quando os políticos e os banqueiros andam enrolados o resultado nunca pode ser grande coisa. Por esta altura do campeonato, o Banco de Portugal (BdP) já deveria ser alvo de uma investigação conduzida pelo Banco Central Europeu (BCE). Se o supervisor das actividades das instituições financeiras não estava a par do que se passava no Grupo Espírito Santo (GES), algo vai mal naquela entidade. Se os sucessivos governadores do BdP viraram a cara a tropelias ilegais, então os mesmos devem ser alvo de processos-crime. E de nada serve usar a expressão: não vale a pena chorar sobre leite derramado. A auditoria que o país exige deveria elencar todas as instituições financeiras ou para-financeiras, e proceder a uma fiscalização preventiva e retroactiva das suas actividades. Quando a esmola é grande, o aforrista deve desconfiar. O presidente do Montepio Geral bem pode aparecer para acalmar os ânimos, e assegurar que o seu banco é diferente dos outros, mas não é bem assim. O sistema financeiro (doméstico ou internacional) tem um DNA complexo, repleto de fluxos e refluxos de dinheiros, fundos e mais fundos de fundos que não têm fim. Nenhuma instituição financeira nacional deve ser considerada imune ao contágio do doente principal. Para tirar tudo a limpo, todos os bancos devem ser sujeitos a um escrutínio meticuloso. Doa a quem doer.

publicado às 21:40

O que se seguirá?

por Nuno Castelo-Branco, em 23.11.08

 

Já suspeitávamos da amplitude, ainda que escondida de forma habilidosa, do gravíssimo problema de credibilidade em que o sistema  mergulhou há apenas algumas semanas. A História portuguesa tem  passado por períodos conturbados que viram ruir reputações e regimes, abrindo novos caminhos e formas de organização política, social e económica.

 

Em 1925, um escândalo de cariz financeiro - uma burla de proporções inéditas - que envolveu gente conhecida, responsáveis do regime de então e o Banco de Portugal, destruiu a pouca respeitabilidade que o regime da I república ainda beneficiava junto da já magra  falange de apoiantes, concentrados na sua maioria, na capital do país.  

 

Estávamos em 1925 e a imprensa servia de veículo de informação para os privilegiados alfabetizados. A rádio dava os seus primeiros passos e a televisão era um mero campo especulativo da ficção científica.  Sem o recurso da informática e da informação ao minuto proporcionada pela tecnologia dos nossos dias, as notícias do Caso Alves dos Reis envolveram uma muito desacreditada classe política que tanto prometera e que conseguira apenas, pouco pão, muito sangue, opressão e um caudal de lágrimas. Portugal estava farto e ansiava por uma verdadeira regeneração que encaminhasse o país para aquele destino que uma história velha de tantos séculos, parecia garantir:  o daquela grandeza que já fora nossa e que inexplicavelmente perdêramos nas vicissitudes decorrentes dos nossos erros, incúrias e sobretudo, falta de vontade.  O escândalo do Banco Lisboa e Metrópole acabou com as ilusões propaladas pelas "rajadas de luz da gloriosa manhã do 5 de Outubro" e apenas um ano decorrido, o regime desaparecia ignominiosamente, sem o mínimo simulacro de defesa por parte daqueles que outrora loucamente o haviam patrocinado. Foi a fuga, uma cobarde debandada jamais vista e o alijamento de responsabilidades tornadas insuportáveis por quem tudo teve nas mãos para o férreo exercício de um poder honesto, progressivo e patriótico. A I república morreu e deixou apenas algumas saudades entre um reduzido número daqueles que dela fartamente tinham beneficiado. A queda da Demagogia foi acompanhada por um sonoro suspiro de alívio de um Portugal maior, que naquele tempo ainda se encontrava presente em três continentes e oceanos. 

 

Hoje estamos no alvorecer de um outro sistema. As implicações da actual crise que esconde trabalhosamente um escândalo financeiro de proporções abissais, parece ir dia a dia, avolumando-se, colhendo a talhe de foice nomes sonantes,  temerosas reputações, tudo enodoando com a vergonha da directa ou disfarçada cumplicidade. O BPN passou a ser um assunto que interessa aos contribuintes e o povo descobre ou imagina conluios, troca freneticamente mensagens telefónicas e na internet, e, pasme-se, delicia-se com a evidente permissividade e sistema de vasos comunicantes que atinge toda a superestrutura do Poder. Ninguém escapa à suspeita e mesmo aqueles sobre os quais ainda não foram apontados os dedos acusadores da opinião pública - sempre ávida de sangue -, são exautorados por aquilo que em Portugal se chama compadrio. Hoje iniciou-se o clássico processo da emissão do comunicado público que normalmente será seguido por muitos outros nos próximos tempos. Até onde irá a realidade da suposição? Quantos culpados pagarão pelos seus crimes e quantos serão aqueles que escaparão airosamente? Pior que tudo, quantos inocentes serão também esmagados pela pesada roda dentada da fúria, que tudo esmaga e trucida, preferindo liquidar a eito, sem olhar à necessidade da calma ponderação de uma Justiça mais que nunca necessária? Até onde chegaremos?

publicado às 20:26

o Neo-Proletariado

por Nuno Castelo-Branco, em 12.10.08

 

Os  domingos são invariavelmente, dias reservados para almoçar em casa dos meus país. Existe sempre tema para longas conversas e estas prolongam-se normalmente até meio da tarde, quando normalmente se vão extinguindo pelo cansaço, ou muito infantilmente, pela vontade de fazer qualquer outra coisa.  O pretexto para um café, daqueles a que chamamos "verdadeiro", dá-nos como opção mais viável, uma visita ao centro comercial, local este absolutamente impróprio ao fim de semana, dado o enorme fluxo de passeantes que hoje em dia, pouco mais fazem que olhar para as montras, ou rapidamente comer uma sanduíche pressurosamente incluída num bem sonante menu.

 

A Livraria Bulhosa do Oeiras Parque, é um local agradável que inclui um serviço de café e pastelaria, onde podemos até degustar um chocolate razoavelmente sofisticado, ou uma especialidade regional. Quem queira ler um livro inteiro não encontrará qualquer constrangimento em fazê-lo, pois para isso existem cadeirões e um confortável sofá, sempre ocupados pelos curiosos das novidades publicadas.

 

Após a ritual bica, lá encontrei um  livrinho extremamente interessante e ao qual não resisti, pois trata-se de um catálogo de uma exposição realizada na Scottish National Portrait Gallery (2001), intitulada The King over the Water: The Life of James Francis Edward Stuart (1688-1766). As imagens são absolutamente encantadoras e muitas delas inéditas, pois os Stuart extinguiram-se apenas um século após a sua deposição durante a chamada Revolução Gloriosa (1688). O que me interessou, foi conhecer algumas das personagens incluídas nos numerosos retratos, assim como os decor das composições, a indumentária e umas poucas cenas maís íntimas de família, apresentadas em tela.

 

Dando uma primeira vista de olhos na aquisição, não pude deixar de ouvir uma conversa entre dois casais que animadamente discutiam a actual situação económica e as suas consequentes conclusões políticas. A gente de direita "sente-se" de forma quase instintiva, não sendo para isso necessárias, grandes conversas de cariz filosófico ou perscrutação de uma visão histórica. São naturalmente de direita e tal não obedece a qualquer código secreto na atitude de cumprimentar ou de se apresentar, pois existem muitas direitas.  Eles sabem acerca de  quem sabe o que eles são e disso não se importam minimamente, como é normal, até porque os imaginados oponentes de esquerda beneficiam da mesmíssima capacidade de avaliação relativa aos seus. 

 

Uma senhora loura, na casa de uns muito interessantes e bem conservados quarentas e tais, lia algumas passagens do Expresso, chamando a atenção do marido e do casal que os acompanhava. O tema, claro está, era a crise financeira e o que dela sairá para o futuro de todos. Após um ..."ainda bem que não devemos dinheiro ao banco"..., não pude deixar de me surpreender pelo tom que a discussão pareceu então tomar, avolumando-se em número e densidade, as críticas a todo o sistema que temos vindo a suportar já há mais de uma década. O ataque à função e aos estratagemas do capitalismo banqueiro, pareceram então ultrapassar os limites daquilo a que normalmente se concede a um discurso de gente de direita. As palavras eram duras, utilizadas a propósito e com perfeito conhecimento de causa, até porque a argumentação foi beber nas águas do antigo lago autárcico que afinal deixou algumas saudades. Desta forma, os bancos são hoje acusados de fautores da acelerada desindustrialização do país e do seu progressivo atrofiar como entidade criadora de riqueza. Uma parte da direita portuguesa considera o banco, como um local próprio para negociatas obscuras, onde réplicas cibernéticas de Howard Carter vivem da manipulação  de xaradas quase hieroglíficas - lembram-se de um post que publiquei a a propósito há umas semanas? -, criando uma virtualidade que descambou no desastre da ficção de uma certa economia que afinal não existe. Esta direita crê sinceramente que os bancos são agências de angariação do dinheiro dos seus clientes-depositantes, servindo de correias de transmissão do complicado, impiedoso e desleal sistema governamental de arrecadação de impostos abusivos. Mais, estes revoltados e coagidos clientes, perderam a confiança naquilo a que durante muito tempo, se considerou ser a única alternativa ao tradicionalmente inseguro colchão caseiro. 

A calma, pausada mas implacável catilinária contra "o sistema", atingiu proporções ciclópicas, quando a louro-veneziana senhora passou a referir-se secamente aos abusos de extorsão com que quase quotidianamente depara nos seus extractos de conta. Taxas pela utilização de serviços absolutamente irrisórios e a avalanche de correspondência desnecessária, não soiicitada, mas integralmente paga pelo contrariado receptor da mesma. O despudor com que se manipulam convenientes datas de entrada de numerário ou cheques na conta, para mais facilmente se aplicarem coimas de duvidosa legitimidade. Dizia a dita senhora, que ..."tinha a minha conta mais que coberta por um cheque de 4.000€, mas como este pertencia a outro banco, por apenas vinte e quatro horas não pagaram a prestação de pouco mais de 90€ do health-club, para me sacar uma multa e sujar o meu nome no Banco de Portugal. Isto é coacção e abuso e sou eu cliente desta gente há mais de vinte anos!"... (sic). Logicamente, a conversa enveredou para os bem noticiados e conhecidos casos de compadrio e cumplicidades no sector, os escândalos de favorecimento e esbulho, o alegado conluio com a classe política e o papel destruidor que a banca exerce e que se tornou num verdadeiro obstáculo à vitalidade de uma economia real. Como argumentos, lá se foram enumerando as entidades causadoras de todos os males, como as empresas financeiras que provocaram a galopante especulação imobiliária e que com o argumento da criação dos chamados serviços, acabaram por impedir os investimentos em verdadeiros sectores produtivos.  Esta revolta parece estar a transformar-se sem remédio e de forma irreversível, num profundo ódio que não deixará de surtir os efeitos que todos já adivinhamos. Esta direita compreende a crise financeira e económica - aqui está o busílis -  como um todo onde a política é a parte indissolúvel que afinal, conforma todas as outras. Julgo que descortinei aqui - é o regresso da ideologia em todo o seu esplendor na dicotomia na análise - a única, mas fundamental  clivagem com o habitual discurso da esquerda radical parlamentar.  Há quem já tenha percebido que o até agora festivo e ininterrupto bacanal de consumo pelo consumo - o apregoado e bestificante status - , está nas vascas da agonia. Esta direita conclui agora, talvez de forma desesperada e muito tardia, da futilidade de quinze anos de publicidade enganosa do crédito fácil, onde peelings, jacuzzis, spa's, resorts nas Caraíbas, jeeps e Club Mediterranée, acabaram por afundá-la no vórtice que inevitavelmente a conduzirá  a um patamar inferior daquilo que se considera ser a "sua" escala social. Esta direita usando mais ouro nos dedos, pulsos e pescoço, que possui vários cartões American Express, City Bank ou Barclays, está tão empobrecida e num tal aperto de perspectivas, que dificilmente encontra uma solução aceitável para a manutenção de um mínimo daquilo a que se habituou. Afinal, começa a dar valor ao tempo em que necessitando de um saquinho de pregos e de um martelo, se dirigia à estância mais próxima, adquirindo o que necessitava, com uma etiqueta comprovativa de Made in Portugal. Esta direita não parece estar a gostar da ausência de produtos nacionais nas prateleiras do supermercado. Esta direita está a execrar a perspectiva desta espada de Dâmocles, empunhada por uma empresa automobilística que por si só, representa 10% do PIB. É uma direita que quer voltar a ver fábricas portuguesas a produzir  em Portugal, a dar emprego e a proporcionar a paz social, necessária para a sua calma e segurança. Já não acredita nas bazófias complacentes da globalização padronizada pelos preços "loja dos trezentos". A esta direita repugna o controle dos circuitos de distribuição controlados ..."pelos estrangeiros..., um verdadeiro perigo que acabará por nos aniquilar de vez"... O discurso parece familiar, até para os mais desatentos.

 

Sabemos o que o isolacionismo económico pressupõe em termos políticos. Conhecemos bem as lições de uma história que afinal, pode muito bem voltar a repetir-se e desta vez, poderosamente alavancada com um certo unanimismo de toda uma civilização que teme o próprio estertor de tudo aquilo que concebe como Vida. Os homens são afinal os mesmos e os métodos também. No entanto, hoje colocam-se à disposição dos mais ousados, instrumentos de inimaginável poder conformador de um totalitarismo até hoje apenas presente na cinematografia fantástica de outras galáxias, onde a tecnologia  se encontra ao serviço de distantes, mas omnipresentes senhores de tudo e de todos. 

 

Quando a direita - um baluarte até hoje intransponível daquilo a que nos acostumámos considerar como liberdades e garantias democráticas -, se auto-exclui da classe média e assume desabridamente a condição de um bastante inédito neo-proletariado, podemos admitir estarem abertas todas e quaisquer possibilidades para a instauração de uma sociedade tão diversa desta dos nossos dias, que em poucos anos, tudo aquilo que a que desde o nascimento nos habituámos, será apenas uma longínqua utopia. Ou será apenas necessário reformular conceitos até hoje intocáveis?

 

 

publicado às 23:45






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