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Uma vaga ideia da crise

por John Wolf, em 02.05.13

 

Em 1980, Alvin Toffler publicava o livro A Terceira Vaga, o segundo volume de uma saga iniciada em 1970 com Future Shock, a que se seguiram outros títulos, e mais recentemente Revolutionary Wealth (2006), considerado uma continuação da Terceira Vaga. Em 1980 tinha apenas 10 anos de  idade e tive de esperar 5 anos para pegar no livro com olhos de semi-adulto e tentar entender algumas das suas ideias. À época recordo-me que o livro espelhava já um brave new world, a emergência gradual da sociedade de informação que hoje vivemos em pleno, com todas as contradições tecnológica-existenciais que conhecemos. Naqueles tempos da aurora digital, Toffler tinha tido a capacidade de ser ousado no desenho que fez das futuras etapas do desenvolvimento humano. Apenas em 2006 voltei a estabelecer contacto com Toffler, mas nesse período que percorri, deambulei por diferentes autores que avançavam com aquilo que designamos por Grandes Teorias das sociedades humanas. No fundo, são quadros que tendem a simplificar o caos e estabelecer uma ordem conceptual. Outros autores, como Francis Fukuyama e a sua obra  O Fim da História e o Último Homem (1992)  ou Samuel Huntington e o Choque de Civilizações (1993) oferecem também distintas arquitecturas de explicação do mundo. E eis que chegamos a 2013, a um mundo em convulsão real, um palco intensamente contraditório, que confirma a ineficiência de modelos de execução, pensados academicamente, mas distantes do corpo social onde os impactos se fazem sentir. Nem sequer entro em detalhe sobre a falência dos modelos económicos que ambicionaram a exactidão das ciências, quando deveriam se ter dedicado a outra arte, como procurar entender o homem na sua acepção mais complexa que transcende a riqueza ou o estatuto. As prerrogativas económicas tomaram a dianteira sem olhar para trás, mas sabemos agora que foi um engano, que algo deveria ter contrariado esse fenómeno de esvaziamento. E que algo deve ser feito para redesenhar o quadro conceptual subjacente à construção das nossas sociedades. Para esse efeito, gostaria de chamar à liça Paul Feyerabend (1924-1994), um filosófio Austríaco, que quase paradoxalmente conviveu com os advogados da Escola Austríaca de economia. Uma das suas ideias centrais tem a ver precisamente com as contrariedades do método científico, a sua alegada consistência argumentativa. A forma como a solução nova valida a anterior, mesmo que esta seja deficiente, numa expressão questionável da revolução de paradigmas, explicada, embora de outro modo, por Kuhn. Deixo à consideração dos leitores a investigação que considerem adequada para que formem o vosso próprio juízo. Não é o meu intento leccionar cadeiras sem o vosso assento. Não estou habilitado para tal. O que me traz aqui hoje, neste encadeado de ideias sobre Grandes Teorias, tem a ver com a inevitável aparição de uma panóplia de aplicações cuja soma não perfaz um modelo estável - um simplificador de angústias, um paradigma no sentido clássico em que o definimos há largos anos. Vivemos o momento histórico da desmontagem de premissas, da desconstrução dolorosa de certezas. Estamos a meio do exame que sublinha a vermelho frases inteiras de cadernos ideológicos e doutrinários. Receitas  para a existência em sociedade, que formataram o nosso modo de ver o mundo, e a nossa teimosia na oferta das mesmas soluções. Iremos assistir, na minha confusa opinião, a um caldeirão de pertinências, a uma amálgama de resquícios de doutrinas neo-liberais e amostras de receitas marxistas. Todos os termos operativos que cuspimos sobre as mesas redondas, deixaram de significar. Tornáram-se obtusos, quadrados. A simbologia que empregamos já não tem nexo, não conhece a paternidade da sua alma fundadora. A plataforma de mediação, designada por consenso político, nada mais será do que um processo de repetições de tiques de demandas e raras cedências. A clivagem que opõe a riqueza à miséria, não encontrará resposta na Social-Democracia ou na Esquerda tal como as entendemos. Será algo de novo que irá emergir. E é aí que nos encontramos. No núcleo efervescente de lava política, que vai expelindo consternações e pequenas curas. A residência estável de uma grande teoria não acontece de um modo célere. Temos de aprender a viver no dia a dia. Com os restos de considerações ideológicas que se encontram por aí em marés de esperança e depressão. Tem tudo a ver com vagas. Ideias vagas.

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publicado às 10:22

Simplesmente Portugal

por John Wolf, em 20.04.13

Quando um político aparece em público a anunciar que o sofrimento poderia ser menor, dí-lo da boca para fora, em pleno exercício da arte demagógica, populista. Se apenas diz o que os outros querem ouvir, não está a ser honesto ou é profundamente ingénuo. Seja qual for a liderança de Portugal nos próximos tempos políticos, a austeridade, imposta de fora ou não, será incontornável. Não existe uma varinha mágica para acenar e fazer desaparecer os grandes sacrifícios que estão a ser impostos aos Portugueses. O exequível, para minimizar a dor, passa por redesenhar o conceito económico e social do país. Será importante que tenhamos em conta que a União Europeia estará à mercê de crises incontornáveis nos próximos anos. Uma seguida de outra. A seguinte diferente da precedente. Os putativos lideres têm a obrigação ética e moral de transmitir aos seus constituintes, que não regressaremos à velha normalidade. Que o mundo mudou. Seja qual for o programa eleitoral a apresentar, o mesmo será sempre uma nota de rodapé de um guião escrito por forças maiores. De nada serve invocar os pais fundadores. A época da paternidade terminou. O momento exige grande criatividade que não se encontra na caixa de ferramentas, ferrugenta. Portugal tem de apostar na sua matriz cultural. Nos elementos intrínsecos que não podem ser contrafeitos no extremo Oriente. Nos produtos e artes, pertença da tradição e das gentes locais. Todos esses tesouros que brilham no firmamento económico e que foram desprezados em nome da sofisticação tecnológica, têm de ser readmitidos com todo o fulgor. Os artesãos Portugueses são notáveis e deveriam ser acarinhados. Tomara que os políticos tivessem metade dos seus dotes. Quem fez os vinhos, os sapatos, a filigrana e as tapeçarias de Portugal? Não foram os partidos políticos. A grande missão de governação passa por anular o divórcio que ocorreu com a alma das gentes. O brio e a auto-estima têm de ser devolvidos à gente simples, disposta de sol a sol a trabalhar com afinco, longe das conjecturas doutrinárias, dos parlamentos e palácios. Para os Portugueses serem felizes precisam de tão pouco. E os políticos nem isso entendem. Só atrapalham e estragam aquilo que está à mão de semear. Cultura de uma nova vaga de esperança.

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publicado às 09:36






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