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Taxismo de sempre

por Nuno Castelo-Branco, em 10.10.16

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Como não utente do serviço de taxis, tinha decidido nem sequer comentar a controvérsia que opõe os taxistas aos seus colegas da "Iubâr" ou da "Québifai". Rarissimamente mando parar um taxi, logo este é um tema que não me interessa minimamente. Contudo, no telejornal da uma, assisti às expectáveis e há muito previstas cenas de violência que não se limitou à farta verbosidade que o luso-calão encerra num dos infindáveis tomos acumulados ao longo de quase um milénio de história pátria.

Recordo apenas o primeiro contacto que tive com tal sector e por mais miraculoso que a muitos possa parecer,  aqui deixo a data desse encontro imediato: a escura e bastante tépida noite de 7 de Setembro de 1974.

Chegados a Lisboa devido à bastante aturada decisão paterna de antecipadamente auto-limparmos familiar e etnicamente Lourenço Marques, fomos viver para a aproximadamente meia dúzia de metros quadrados propiciados pela roulotte do primo Joaquim Dantas. Em Monsanto estávamos relativamente seguros numa Lisboa em pueril polvorosa.

Nos primeiros dias aproveitámos para visitar a parte da cidade histórica, hoje muito mutilada devido à febre do obra a obra que há décadas tomou de assalto as mentes de sucessivas vereações camarárias. Após um dia sem grande historial a registar e como àquelas horas nocturnas o machimbombo 43 já não funcionava, o meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e pcht! Taxi! Taxi!

- É para o Parque de Campismo de Monsanto...

E lá fomos sentados no banco de trás, acompanhados pela nossa mãe. Íamos conversando e ainda nada habituados aos até então desconhecidos termos como foleiro ou reinar - "rénar", no dizer geral -, pontilhámos a conversa com os ya, maningues, nice, tombazanas e outras palavras que tínhamos aprendido nas ruas e casas da nossa volatilizada cidade natal. Provavelmente o chauffeur moita-carrasco bigodudo e de boné estranhava, mas nada dizia, até que o rádio iniciou o debitar das notícias que precisamente naquele 7 de Setembro traziam ao conhecimento da então Metrópole, acontecimentos num território bem conhecido e por nós já interiorizado como para sempre distante. 

...graves acontecimentos (...) colonos em fúria (...) fascistas (...) Rádio Clube de Moçambique (...) assalto (...) forças reaccionárias (...) colonialistas (...) conluio com os sul-africanos (...) Lourenço Marques (...) MFA...

O meu pai gentilmente pediu ao motorista: 

- Desculpe-me, importa-se de aumentar o som do rádio?

- Eh pá, ó camarada, afinal d'adonde bócêzes são, pá?  

- Somos de LM, chegámos há uma semana e vivemos provisoriamente em Monsanto. 

- F-se!, Car...! Pqp!, no meu taxi uma família de fachos dum car...?! Os pretos deviam ter-vos cortado às postas seus fdp dum car...! 

Parou o radiofonizado calhambeque Mercedes "marreco" num profundo e doloroso gemido de travões gastos.

- Rua já, seus cabr... antes que eu chame os meus camaradas e vos f... a todos aqui mesmo nesse mato, seus fdp! Vão prá vossa terra, vão para a c... da vossa mãe!

O meu pai mandou-nos sair e voltando-se para o revolucionário de carrascão e caracoletas, perguntou-lhe com um sorriso:

- E como tenciona chamar os tais camaradas? 

E lá partiu ele, decerto furibundo e bufando, deixando-nos às escuras em pleno monte de Monsanto por onde deambulámos durante uma boa hora aos círculos, procurando a entrada de um parque de campismo que o meu pai julgava próximo. Na verdade estava e felizmente encontrámo-lo sem grandes delongas. Este episódio serviu-nos de aviso para o que aí viria. 

Já distante mas jamais esquecida esta tempestade de outros tempos, foi mais ou menos este o discorrer do discurso escutado que tenho como nota de rodapé da estória da minha família. Decerto não fomos os únicos, pois apostaria que qualquer um dos leitores terá a sua. Será ela a propósito de pretos? De ciganos? Ou será de estrangeiros Made in U.E. que invadem e roubam tudo o que é nosso

publicado às 17:55


2 comentários

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De isa a 20.10.2016 às 10:08

Também tentei evitar este assunto mas, não aqui, acabei por comentar, ao ler que, por causa dos desacatos, alguém se tinha convertido à Uber mas, nada é tão simples como parece, aliás, o grande problema é cair na asneira de simplificar. 


1º erro em que a maioria anda a cair é que tudo o que seja tecnologia é bom e irá contribuir para a felicidade dos 99% (bem pelo contrário). Aqui, seria preciso parar, para saber, exatamente, até que ponto queremos Toda a tecnologia que nos querem "enfiar pela goela abaixo" ou, simplesmente, ir fazendo a opção, entre aquela que queremos usar ou nos recusemos a utilizar. Nunca esquecer que já existe quem ande, entusiasticamente, a usar um chip debaixo da pele.



Os taxistas terão o instinto a funcionar na perfeição, só não sabem racionalizar o problema. Alguns, nem devem saber que a Uber já está no caminho de ter automóveis sem condutor (portanto, sabendo isto, defender os motoristas da Uber será como "chover no molhado" será, apenas, mais uma etapa transitória para a nossa infelicidade). 
Antevendo o Futuro e, sobre quem lucrará, realmente, com aquilo que nos apresentam como sendo bom, não para nós mas, certamente, para aumentar os lucros das Multinacionais e, entre carros e camiões sem condutor até aos restaurantes totalmente automatizados, já em teste e em funcionamento, onde não são precisos seres humanos, o objectivo é mais do que óbvio. 
Sem independência económica, ficaremos nas mãos de quem?
No caso dos táxis, é escusado defender a tecnologia, de virem com o tempo da carroça porque, neste caso, muitos vão acabar por não utilizar um táxi sem condutor, por não terem dinheiro quando, tecnologicamente, tiverem sido substituídos.



Passou despercebido o referendo na Suíça onde perguntavam se queriam passar a ter um rendimento base universal, ao qual, inteligentemente responderam Não e, aqui, lhe garanto que a ideia do 1%, será mesmo essa, a última etapa do controle absoluto, uma espécie de dependência, da "ração" que eles quiserem dar. Claro que a proposta vem sempre bem "embrulhada", dizendo que quem quiser trabalhar para ganhar mais, terá essa possibilidade, quando se vê que as Leis, estão todas a ser feitas para tirar a vontade de investir ou de "suar", quando rematam com o castigo, de pagar cada vez mais impostos, ou seja, Legislação que só incentiva a dependência e, disfarçadamente, vai conseguindo exterminar a classe média.
E, sem espaço... (continua)
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De isa a 20.10.2016 às 11:10

(continuação)
2º erro - Desconhecer o nível de desenvolvimento da tecnologia, não falo dos "brinquedos" que "suam" para conseguir comprar, falo da tecnologia que, para muitos, ainda parece uma ideia longínqua, no entanto, já temos computadores a produzir notícias diárias. Menos de uma década, até teremos profissões que se acham insubstituíveis como polícias, professores, médicos, recepcionistas... esquecendo que a inteligência artificial, já não é ficção científica, com um nível de conhecimento incomparável ao dos humanos, muito dele acumulado nas "clouds" para não falar da invenção da IBM em 2013 "cloud of clouds", portanto, um acesso direto aos que, não sendo humanos, os vão substituir em quase tudo e, aqui, o quase é só para nos animar um bocadinho ;)



Continuando a desprezar a importância do trabalho humano em que, cada um, se imagina a salvo e, vai contribuindo para a sua destruição, apenas acaba por beneficiar as grandes corporações, comprando online, respondendo carregando num 1-2-3-4, pagando nas portagens nas caixas automáticas, escolhendo pagar as compras no supermercado sem ser através de uma funcionária, teclando o pedido do hambúrguer... cada dia que vai passando, pensam todos ser muito espertos mas, podem começar a fazer fila porque, os próximos, também podem vir a ser condenados como os taxistas mas, vai ser tipo karma que, um dia, irá cair em cima de todos nós porque, na realidade, estamos a ser encurralados num novo feudalismo tecnológico. 
Quando se fala em 70% da riqueza acumulada numas 62 pessoas, olhando para o estudo de dois matemáticos suíços que conseguem comprovar que, a nível global, essa riqueza acaba em 4 Corporações que, com os seus tentáculos, vão concentrando, não só riqueza mas, também, cada vez mais Poder a nível Global.



A tecnologia chega ao público com um atraso de décadas, controlam não só o quando como o que lhes convém. 
Quem saberá sobre o estudo do MIT, o Smart nano dust que consegue fazer a ligação ao nosso computador biológico, o cérebro?
Há milhares de exemplos mas, pode ficar um que já tinha sido mostrado em 2010, para pensar, quanto terá avançado a tecnologia e, com este, já estou a ver uma Bina 480 nos noticiários ou como mera funcionária pública. 

https://www.youtube.com/watch?v=KYshJRYCArE
Bina 48 Meets Bina Rothblatt-Part One

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