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Ucrânia e o vazio português

por John Wolf, em 04.09.14

Não sei que nome dar ao fenómeno. Mas parece haver um desligamento preocupante entre o que se passa em Portugal e o que está a acontecer lá para para as bandas da Ucrânia. Existe um plano de contingência para o caso de um conflito armado ocorrer e que envolva um dos países fundadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)? Refiro-me a Portugal como é óbvio. Quais os impactos expectáveis para a economia portuguesa? Que implicações militares, tácticas e logísticas se reservam para Portugal? Existe alguma plataforma de coordenação no plano interno por forma a oferecer uma resposta tendencialmente racional? Será Portugal um porto seguro para células do Estado Islâmico que queiram ampliar o seu espectro de actuação? Mesmo que estejam a decorrer movimentações nos bastidores da administração e processos de brainstorming que procurem o elencar de cenários possíveis, existe uma dimensão que não deve ser alienada: o modo de envolver a sociedade civil na tomada de consciência da gravidade da situação. As televisões nacionais, assim como os outros meios de comunicação social, também contribuem para uma apatia generalizada. Não cumprem os requisitos mínimos de jornalismo sério que deve servir para acordar a sociedade civil e pôr em marcha processos intelectuais. Mas há mais que nos deve preocupar. Seria expectável, face ao grau de emergência em que nos encontramos, que pudéssemos contar com o desempenho competente dos nossos lideres e das organizações que zelam pela defesa nacional e a segurança interna. Qual a posição portuguesa a defender na Cimeira da NATO, mesmo que esta ainda não tenha a sua própria fórmula definida? Ao não haver comunicação, e partilha da relevância deste momento histórico (na intensidade que se exige), Portugal corre ainda maiores riscos. Os impactos negativos que um possível conflito europeu provocará, devem ser salvaguardados sem demoras. É de uma tristeza atroz que não haja noção dos tempos que estamos a viver. Os actuais governantes, assim como os putativos lideres, têm a obrigação de estabelecer a ligação entre os desafios económico-sociais nacionais e o quadro geopolítico internacional. A abordagem ao sistema internacional não pode ser realizada de um modo primário. Portugal partilha fronteiras com a Rússia, a Ucrânia, os EUA e a NATO. Portugal não é uma ilha remota, afastada das decisões tomadas pelos grandes senhores. Quanto às primárias que ocupam os escaparates da política nacional, nem sequer lhes dedico uma linha. São crianças que se encontram a uma distância enorme do mundo real. São peixes que não nadam no aquário. Nada.

publicado às 09:54


1 comentário

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De Armando Marques Guedes a 04.09.2014 às 12:05

Um muito bom alerta, John. Obrigado, como português, como europeu, e como Aliado. É boa altura de acordarmos. Até porque me cheira que (bem) vamos ter de aumentar os investimentos públicos na defesa e na Grande Segurança, o que envolve o erário público. E os poderes públicos devem partilhar connosco porque o fazem. O que tenho, como julgo ser o caso de todos nós, por imprescindível: tanto que o façam, como que nos expliquem porquê. Claro que Portugal (enquanto Estado-membro da NATO e da UE) tem efectivamente fronteiras com a Ucrânia e a Rússia; não se trata, por isso, de "uma questão distante, sobre países de que sabemos pouco". Tal como há jihadistas portugueses a lutar pelo Estado Islâmico, jihadistas que importa assegurar que não voltem para cá, ou sejam presos mal o façam. Como membros plenos (fundadores!) da NATO, temos fronteiras imediatas com a Síria e o Iraque, com a Geórgia, na Turquia, também ela membra da Aliança. O mundo já não é, para o bem e para o mal, o de 1939, não sendo por isso um mundo em que possamos ficar fora deste(s) conflitos. Nem devemos. Temos, perante esses conflitos, obrigações constitucionais que resultam do estatuto dos Tratdos que assinámos para entrar nas organizações que nos defienm as múltiplas fronteiras que hoje em dia temos. Estamos já, há décadas, envolvidos com militares das nossas forças de segurança, em mais de vinte palcos de guerra; em nenhum dos casos, nenhum, estamos empenhados neles em termos bilaterais: lá nos encontramos e lá temos tido, por via de regra, excelentes prestações, sempre no quadro da NATO, da UE, ou da ONU. Muitas vezes, como no Afeganistão, estivemos e estamos, honrosamente, sem quaisquer caveats. O que nos fica bem e nos faz ganhar enormes dividendos "simbólicos"; o que nos torna respeitados. Por isso que temos a quantidade de gente que temos em lugares internacionais de topo; é por isso que nos olham como gente leal, corajosa, e sem lamúrias descabidas nem nenhumas arrogâncias: há que nunca esquecer que aos nossos militares e forças de segurança o devemos. Teremos de porventura de estar em breve em mais palcos, e palcos mais acesos. Feliz e infelizmente. Mas temos de o fazer com orgulho, fidelidade aos nossos princípios,  aos Tratados que assinámos, e explicando aos portugueses porque é que assim é.  Não basta nem uma "neutralidade colaborante" nem, em democracia, um silêncio ambíguo. Somos um Estado adulto e um aliado fidedigno e temos de o mostrar. É um drama para todos nós, mas as "férias grandes" acabaram. Espero que, por uma vez, saibamos estar à altura dos acontecimentos. O lastro dos últimos vinte anos é mais do que bom. Mantenhamos as boas práticas que temos seguido. Portugal e os portugueses, como todos os outros, afirmam-se em momentos como os que vivemos: quanto somos precisos e confrontamos um mundo que não pára de piorar. Abrimo-lo, nos séculos XV e XVI; ajudemos a mantê-lo aberto e sem apartheids, como é nosso tom.

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