Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ao fim de varias decadas e centenas de milhar de milhas a voar (com o mesmo pavor de sempre) continua a ser possivel identificar, de olhos fechados, a aterragem e subsequente estrago de nervos ao voltar a lisboa.
os passageiros continuam a ficar quartos de hora dentro do aviao a espera de poderem sair.
a absurdamente serpentina fila para os taxis, a inexistencia de autocarros, a demora na entrega das bagagens, o ingles incompreensivel das maquinas que vendem bilhetes - tudo isto acresce.
acresce, tambem, o aspecto deprimente e degradado das estacoes de comboio, que nunca viram outra cor alem do cinza-betao. e o ar bronco, ilheu, rasca que um varrimento breve sobre os locais persiste em devolver.
talvez aquilo de cuja falta mais sinto seja mesmo a qualidade do ar. fora deste tugurio, quaisquer tres horas podem trazer conversas esclarecidas, espontaneas, divertidas e cheias da fantasia que, supostamente, a latitude e o favor meteorologico confeririam aqui ao quintal.
sucede que nao. so se ouvem roncos, banalidades e silencios sepulcrais como se o outro fosse sempre devedor potencial da alegria que nao assiste ao pobre e misero portugues europeizado.
deve ser, como digo, do ar; porque afinal temos o sol, e as praias e serras e ciclovias e meninagem que se equipara a professores, e professores que ainda viverao uma quarta infancia, e a pax fiscallica, e o sol, que estou a repetir por me sentir estupido e geneticamente alienado de todo este mundinho hermetico onde o sol, o sol, o sol, o sol e nada alem do sol importa àqueles que, incapazes de admitir a sua ineficaz paralaxe, insistem em dizer que eh tempo de avançar, de sol em sol ate a noite final.
portugal tornou-se uma enorme cadeia de fast-food, uma ponte para aquele mediterraneo com o qual nenhuma das sofisticadas criaturas que a tal nos trouxeram admite identificar-se.
conforme aterro, assim anelo por voltar a voar. nao sendo o sol, deve ser do ar.