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Vidas difíceis

por Nuno Castelo-Branco, em 28.06.16

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- Mummy, porque razão vocês, os velhos, estão a roubar-me o futuro? 


- Roubar-vos o futuro? Já te digo quem teve o futuro roubado.

- O teu trisavô Randolph que morreu com vinte e dois anos em Ypres, desfeito por uma granada alemã. O teu trisavô Andy que passou por Arras, por Paschendale e esteve enterrado na lama da Flandres durante três anos até ser internado devido a gases, ficando cego de um olho. É aquele senhor da pala que está em várias fotos a sépia, aquelas que há uns dias disseste “bem podias vendê-las!” O teu trisavô Robert que veio da Austrália e ficou sem uma perna em Gallipoli e depois foi evacuado para Inglaterra, ali se casando com a tua trisavó Maggie, a enfermeira que conheceu e dele tratou no hospital. Viveram todos eles os difíceis anos vinte e passaram pela crise de 1929 e as suas filas de desempregados.

- Yes, but…

- Quanto aos teus quatro bisavós, também te posso dizer qualquer coisa. O teu bisavô Peter foi evacuado em Dunquerque e depois teve de servir na DCA que defendeu Londres durante o Blitz de 1940. Daí seguiu para o norte de África e fez toda a campanha da Líbia, passou por El Alamein, foi capturado na Itália e passou dois anos na Silésia, Alemanha, como prisioneiro de guerra. Sabes onde fica a Silésia? Pela tua cara, claro que não…
O teu bisavô John serviu na RAF, fez a Batalha de Inglaterra e foi depois destacado para servir no porta-aviões Ark Royal no Mediterrâneo, aí tendo perdido a vida quando o navio foi torpedeado. É aquele senhor da foto sobre o sideboard, o da Victoria Cross.

O teu bisavô Tony foi embarcado na defesa da marinha mercante que fazia a ligação do Reino Unido ao Canadá e EUA, correu enormes perigos devido à campanha submarina da Kriegsmarine e acabaria por ser destacado para o exército e participar no D Day, na Operação Market Garden, acabando a guerra como um dos motoristas de Montgomery e assistindo à rendição dos nazis na charneca de Luneburg. Dali seguiu para Berlim, para servir nas forças britânicas de ocupação, uma cidade em escombros onde conheceu a tua bisavó Elke com quem tanto te pareces e que como refugiada, miraculosamente sobrevivera à evacuação da Prússia Oriental, vendo o resto da família morrer esmagada sob o dilúvio de bombas e granadas soviéticas. Lembras-te de quando em pequeno foste connosco num cruzeiro no Báltico e com ela desembarcámos em Kalininegrado e pela última vez ela viu a fachada da sua casa? Nunca esquecerei aquela visita a uma aldeia do interior, abandonada e em ruínas… o desespero dela para ali sentada durante horas, olhando para o vazio. Morreu pouco depois, claro que já não te recordas.
O teu bisavô James serviu durante anos como descodificador da Enigma em Bletchley Park, enquanto todas as outras tuas bisavós, ou ficavam em casa a tomar conta dos teus avós, ou prestavam serviço nas fábricas, na Home Guard, na Cruz Vermelha, na Intendência das Forças Armadas ou nas nurseries do Estado. Passaram pela fase da reconstrução, num horizonte infinito de fome, ruínas e penúria que durou mais de vinte anos. Mesmo assim, meteram mãos à obra e juntamente com os franceses, alemães, belgas, holandeses e tantos outros, construíram essa Europa que agora vês. Todos eles votaram yes em 1975.

- Yes, fine, but…

- But, nada! Quanto aos teus dois avós, também tenho algo para te contar. Enquanto o teu avô Tim participou na Campanha do Suez e daí foi depois destacado para a Malásia e Hong Kong onde conheceu a tua avó Anne, o teu avô Tom mentiu na idade e enfrentou os Mau Mau no Quénia, ali sendo ferido e acabando por morrer num hospital militar em Nairobi, cidade onde eu e os teus tios nascemos.

- I know all that but I…

- Espera, ainda não terminei, shut up!
Quanto a mim e ao teu pai, também tenho algo para te dizer. Quando da independência do Quénia, fui evacuada com a tua avó que já estava viúva, juntamente com teus tios que mal sabiam andar. Viemos para Londres onde acabei por conhecer o teu pai uns anos mais tarde. Ele estava então destacado na Royal Navy e fez a Campanha das Falklands como piloto de helicópteros, transportando grandes placas de metal que atraíam os mísseis argentinos, os Exocet vendidos e fornecidos pelos nossos aliados franceses. Foi condecorado pela própria Rainha!


- Estou farto de ouvir essa história de pedaços de lata brilhante no casaco, mas, mummy, o que são mísseis Exocet?

- Se não sabes vai à Wikipedia, deve existir uma página sobre isso.

- Fiz horas extraordinárias para te dar tudo aquilo que a sociedade da tecnologia proporcionou: para não te sentires diminuído em relação aos teus amigos mais ricos, ofereci-te sempre os mais avançados telemóveis, enquanto ias colocando os outros naquela gaveta onde ainda estão. Comprei-te os IPAD, os Iphone que perdeste, os computadores de mesa sempre em actualização e todos os gadget e tablets quando te via e ainda vejo a olhar intensamente para uma montra. Comprei-te sempre as roupas que querias. Paguei-te as férias em vários resorts do Mediterrâneo e sempre com sucesso apaziguei o teu pai furibundo e farto das tuas bebedeiras, raves abroad, festas trance e pedinchices quanto a todas as play-stations & games que agora tens para ali atiradas e esquecidas no armário do teu quarto. Com grande sacrifício comprámos aquela pequena flat em Albufeira, no Algarve onde passas for free fins de semana com os teus amigos da bola e da cerveja. A propósito, porque te recusas a ir connosco? Fechámos os olhos às dúzias de viagens de um dia na Ryan Air para ires assistir aos jogos do Manchester United em toda, toda a Europa e várias vezes por ano. Olha, nunca te dissemos, mas quase morremos de vergonha por nós, pelos teus avós e pelo teu país quando foste preso no sul de Espanha por hooliganismo. No meu trabalho nunca souberam. O teu pai meteu-se num avião, pagou a um advogado espanhol e foi resgatar-te, estavas todo esmurrado, lembras-te? 

Depois, decidimos fazer mais um empréstimo ao Barcklay’s para que pudesses aproveitar o Erasmus na Polónia. No serviço as minhas colegas gozavam comigo a propósito desse programa, fazendo trocadilhos com outra palavra que decerto conheces. Aproveitaste? Vida difícil a tua…

- Fuck off!, I hate all of you!, you cannot understand young people! (sob)

- Yeah, yeah, toma lá 30 Libras para ires com os teus amigos ao pub ver o jogo Inglaterra-Islândia...

publicado às 11:13


7 comentários

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De Inda a 28.06.2016 às 13:16

Texto didático: simples e muito bom.
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De Bilder a 28.06.2016 às 16:15

Muito bom mas muitos vão simplesmente agarrar nas 3o libras(e talvez comprar uma bandeira da UE) e fazer "tábua raza" do ensinamento.
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De JS a 28.06.2016 às 15:20

Obrigado.
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De xico a 28.06.2016 às 16:18

Portanto o jovem ´e pateta porque quer poder andar a divertir-se na Europa a ver futebol e o avô ´´est´´a cheio de bom senso porque quer regressar ´´a Europa da lama da Flandres e de Gallipoli. E j´´a agora, o avô podia explicar ao jovem o que ´´e que o trisavo foi fazer a Gallipoli, quando aquilo era um assunto entre turcos e ´´arabes. (peço desculpa mas o meu teclado enguiçou com os acentos desde essa coisa espertalhona do Brexit). E as Falkland, ele que explique ao neto essa coisa das Falkland, e do Qu´´enia. E j´´a agora não tinha tam´´bem o neto um avô que em vez de hooliganismo em Espanha andou a fazer disturbios nas terras dos zulus e at´´e levaram uma tareia das boas? Ele que fala da vergonha dos av´´os dos av´´os por causa de Isandlwana, que não houve advogado que apagasse a vergonha. Que isto de sonhar com um mundo sem fronteiras quem h´´a duzentos anos atr´´as tinha um navio em cada porto do mundo ´´e uma bizarrice de jovens patetas. Caro Nuno Castelo Branco, eu e você que vi´´emos de um mundo e de um tempo em que aprendemos que pod´´íamos viver em paz e harmonia desde o Minho at´´e Timos, e j´´a o vi defender o assunto, fica-lhe mal o texto tão antigamente ´´e que era, e contra uma Europa que podia ser sem fronteiras, inclusiva, e solid´´aria. Isso ´´e muito melhor que lembrar aos netos a lama da Flandres ou o desastre de Gallipoli.
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De Anónimo a 28.06.2016 às 19:15

Clap, clap, clap!!
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De José Lima a 29.06.2016 às 12:13

Caro Nuno, gostei muito deste seu artigo. O mau perder, o desespero e os tiques totalitários dos apoiantes da permanência do Reino Unido na União Europeia são, “a posteriori”, mais uma razão suplementar a favor da defesa do “Brexit”. A tentativa de subversão da igualdade de todos os cidadãos perante a lei e do princípio democrático de “um homem, um voto”, com o sufragar de discriminações em função da idade e a defesa de um voto de qualidade etário, num regresso do sufrágio censitário ou estamental, seriam ridículos se não fossem tão inadmissivelmente graves. De facto, por que motivo há-de o voto dos eleitores mais velhos ser menos considerado, se o contributo destes para a construção do que a Inglaterra é hoje foi muitíssimo superior ao dos jovens ditos descontentes, a maior parte deles uns autênticos “Beavis and Butt-Head” vivendo no mais puro ripanço do que aqueles primeiros conseguiram? Não podem os mais velhos ter uma palavra acerca do destino que há-de ter aquilo que tanto lhes custou? Eu, com o Nuno, julgo que sim…
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De Zé a 30.06.2016 às 21:18

Quantos dos jovens entre os 18 e os 24 anos trabalham e pagam impostos?

Vale mais o voto de alguém que contribui zero, que o de uma pessoa de 55 anos que já paga para manter o país há quase 30?

Será que os palermas que defendem que os "velhos" não deviam votar reagiam bem ao argumento de quem não paga impostos não deve votar? Estou curioso.

Ou todos os votos valem o mesmo, ou nenhum vale nada.

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